Sexta-feira, 9 de Junho de 2006

Vidas d’Aldeia


- Óh Toino, rais ta parta, acorda home. Dianhos ta levem! Olha o gado a berrar!

Na enxerga de palha, debaixo de meia dúzia de telhas desalinhadas e partidas, por onde entrava o sol ou a chuva, o frio e o calor, perdido no sono, o António ouvia ao longe os gritos do Camilo. O corpo franzino e exausto, pedia descanso, castigado pela dureza dos trabalhos sobre-humanos, encontrava forças nos desânimos, nas fraquezas e na fé, de que um dia tudo mudaria. Para melhor!

- Óh Toino…, abriu os olhos e, através do telhado, viu as estrelas brilharem na noite escura. Sentou-se na borda da cama e às apalpadelas procurou as roupas coçadas com que se cobria. Aos quinze anos decidira ir servir. Fizera-se moço de lavoura, por vontade própria de ganhar o seu pão e não sobrecarregar a mesa de seus pais. Que eram tempos difíceis, vidas duras de muito trabalho. E fome, muita fome para distribuir por bocas que pediam pão.

Raio de vida esta que arranjara. Trabalho escravo, todo o ano, sem horário, sem um descanso, nem ao Domingo que fosse. Levantar ainda noite e deitar quando calhasse. Tratar do gado, cortar matos, lavrar as terras, semear, mondar, limpar cuidar, fazer os piores trabalhos. Por fraca mesa e duzentos e cinquenta escudos por ano.

- Tóino, vai tratar do gado, põe as vacas ao carro que temos de ir pró monte. Já bateram as cinco! Diabo do moço!

Duzentos e cinquenta escudos por ano. Outros moços seus conhecidos já ganhavam seiscentos e não trabalhavam mais que ele. Não, isto não era vida para um homem. Não era a vida que queria para si. Falaria a seu pai e dir-lhe-ia que não queria continuar moço de lavoura. Que voltaria para casa se o senhor seu pai o permitisse.

Pelo fim do ano, terminava o contrato e o pai do António foi fazer contas. O Camilo entregou-lhe os duzentos e cinquenta escudos combinados.

- Olha cá Camilo. O rapaz não quer continuar a servir. Quer voltar para casa.

O lavrador pensou, passou a mão pela face e disse:

- Atão e tu que dizes? Leva-lo assim? Não mandas nada?

Não, respondeu o pai do António. Casar e servir é da livre vontade de cada um. Se ele não quer servir mais, vai para casa e come do mesmo que os outros.

O António voltou para casa dos pais. Feita a tropa, partiu para África. A nossa aldeia era pequena demais para o seu querer. Foi com Deus e com a sua determinação. Começar do nada e sem ninguém numa terra estranha. Trabalhou no que apareceu e por lá andou mais de trinta anos. Ajudou a construir impérios. Trabalhou para outros e depois para si. Lá investiu tudo o que ganhou. Em 1974, voltou. Sem nada. Lá ficou lá tudo.

Há fados que não se conseguem mudar.
Este post foi igualmente publicado no Jornal de Estarreja de 09/06/2006