Quinta-feira, 5 de Outubro de 2006

bota bota

Como tantos Portugueses, as gentes da minha aldeia sofreram na pele os amargos dias da emigração. Muitos de nós tivemos de virar costas a tudo e todos que nos são queridos, e fomos por esse mundo de Deus, em busca de melhor vida.

A partir dos anos trinta, lançamo-nos à aventura, com uns contos de reis emprestados para a passagem e a esperança de melhores dias.

Daqui, muitos foram para Venezuela, trabalhar na construção e cozer pão, em regime de trabalho pouco menos que escravo. A viver em grupos de quatro a seis em pequenos quartos onde se dormiam as breves horas do curto descanso.

A parca instrução, conjugada com o vocabulário da região, muito mais próximo do das gentes do norte, do que do centro, em que nos inserimos, ditavam situações que hoje, muitos anos e trabalhos passados, têm muita graça.

O mais instruído fazia o favor de escrever as cartas para a terra e, ler as recebidas.

…………

Querida Rosa,
espero que esta te encontre bem que eu estou de boa saúde. Já cheguei à Venezuela e isto cum carvalho, é um mundo. Logo que o barco atracou cum carvalho, se visses a altura das casas cum carvalho, é uma cidade muito grande cum carvalho e nas ruas são tantos automóveis e tanta gente cum carvalho que um homem perde-se nesta avenidas cum carvalho…,

- Óh Manel mas assim a carta vai cheia de carvalhos!

- Num faz mal, bota bota qu’ela gosta!