Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

O Grande Crime da Lomba

No caminho da lomba, no lugar da Afeiteira, devido a questões de pastos e gados, e também por causas de amores.

Manuel Joaquim Tavares, chamado o Sargento, pai de Ana Tavares contrariava o namoro de sua filha com José Joaquim Domingues, pois há muito que preferia vê-la casada com Agostinho Tavares, criado de sua casa e, ainda seu parente afastado.

O Domingues, sabedor da preferência do Sargento, olhava com maus modos o seu rival Agostinho. Sabendo-o debaixo do mesmo tecto da sua amada, os ciúmes davam-lhe volta ao juízo e traziam-no arreliado e triste.

Naquele dia fatídico de 14 de Agosto de 1848, o Agostinho fora ao campo a ver de um talho que o patrão tinha balizado para pasto do seu gado, dando com um rapazote, filho de José Neves, a prender uns animais na pastagem do Sargento, seu patrão.

Pediu contas ao garoto e este disse-lhe que levara para ali o gado a mando do Domingues. O Agostinho viu nisto uma afronta, uma provocação do seu rival. Exaltado, com o sangue a ferver, tolda-se-lhe o raciocínio, e desfere uma pancada tremenda, mentendo dentro a porta de uma cabana enquanto grita ao garoto; se eu apanhasse aqui quem te deu esse conselho, metia-lhe dentro as costelas como fiz à porta.

O garoto, disse-lhe qualquer coisa e o Agostinho, de cabeça perdida, empurra o miúdo para dentro de uma vala de água.

Chegado a casa, choroso e molhado, o garoto conta a seu irmão António Neves, inseparável amigo do Domingues, o que se tinha passado. Imediatamente, este vai contar o caso ao Domingues e logo ali, combinam a vingança. Ambos tinham o pretexto; o Domingues, o ciúme, o Neves, a afronta ao irmão.

Acertaram ir esperar o Agostinho ao caminho da Lomba, e no sítio da Afeiteira, armados de foices, saltaram-lhe ao caminho. Lançando a foice por baixo, o António das Neves, decepou-lhe um pé pelo tornozelo. O Domingues, ia para secundar a agressão ao que o Neves se opôs dizendo: Deixa que já está bem convidado.

Deixando o Agostinho estendido a esvaír-se em sangue, seguiram caminho fora mas, a dado momento, o Neves volta atrás e, com a foice esquartejou-o. O Agostinho, gritou p’la alma até à morte ao que acudiu João da Cruz, o Cabano, que, guiando-se pelos gritos, deu com o Agostinho já cadáver.

Poucos metros à frente, os agressores tiravam-se de razões, culpando-se mutuamente. O Cabano, achando o Agostinho morto e vendo-se sozinho, seguiu o seu caminho.

O Neves, escondeu a foice ainda ensanguentada, em casa dum cunhado chamado Inácio e fugiu. O Domingues, acompanhado do pai, fez igual.

Nas averiguações, a polícia encontrou a foice em casa do Inácio e prendeu-o como autor do crime. O Cabano, sabendo que o Inácio estava inocente, procurou o regedor, António Valente e deu-lhe conta do que vira. Este saiu em perseguição dos fugitivos e acabou por prender o Domingues e o pai perto de Águeda.

Foram julgados no tribunal desta localidade tendo sido o Domingues condenado à morte por enforcamento junto à sua casa. Apelou por clemência e a condenação acabou por ser comutada em pena de deportação perpétua para Cabo Verde e pagamento de 500$000 réis.

Do Neves, nada mais se soube.

Aos 28 anos, Ana Tavares fora o motivo de uma disputa entre dois homens que acabaram, um no degredo, outro na sepultura.

Dizia-se anos depois na Aldeia, que a fortuna da casa dos Gouveias, tinha sido mandada de Cabo Verde para Portugal, pelo desterrado.

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O grande crime da lomba, foi recolhido da tradição oral pelo Sr. Reinaldo, que o incluiu nas suas anotações e, posteriormente, contou a António Domingues de Sá, em cujos escritos inspirei a composição deste texto.