Sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

P'ra 'ribar

O post de hoje, é a meias. O nosso amigo Narciso Cruz, em boa hora decidiu colaborar na recolha e divulgação de antigos casos que ficaram na história e, no imaginário colectivo da nossa Aldeia. Aqui vai a sua primeira colaboração:

1930 - Acaba na nossa terra o velho costume de dar de comer e beber aos acompanhantes dos funerais. Cita-se, por se achar de manifesto interesse, o depoimento escrito de Arnaldo Cândido Duarte Silva sobre o assunto, no seu livro “Apontamentos relativos à Freguesia de S. Tomé de Canelas”.

“Havia na freguesia a arcaica e detestável costumeira de, quando havia qualquer funeral, levar-se para uma dependência da igreja, pão e vinho que forneciam às pessoas que o desejassem – para matar saudades (ir molhar as goelas!)

Escusado será dizer-se que abundavam essas saudosas criaturas que, num grande à-vontade transformavam aquele recinto sagrado numa autentica taberna donde saíam, muitas vezes, não menos autenticas bebedeiras que davam, aos etilizados, para chorar amargamente…, a alma do defunto.

Outros então, com o papinho bem recheado de pão e vinhaça levavam, para maior sacrifício pela alma do falecido, os bolsos cheios de pão, para casa!

Afinal os sacrificados eram os doridos que, devido a um costume que não tinha razão de existir, alimentavam os estômagos de certos comedores que aproveitavam tão tristes momentos para comer e beber à tripaforra!”

Colaboração de Narciso Cruz

A este propósito, vem-me à ideia que em muitas zonas é hábito, ainda nos dias que correm, este tipo de situação. Há mesmo culturas nas quais, a morte é celebrada festivamente, com verdadeiros banquetes.

Não muito longe daqui, há uns anos, um conterrâneo, deslocou-se a uma povoação vizinha, dista de cerca de 30 km, para prestar uma última homenagem a um parente afastado que falecera.

Chegado e cumpridas as formalidades das condolências, o nosso amigo tomou assento. Reparou em dois factos pouco habituais:

Quem chegava, vestia invariavelmente uma curta capa, dentro da qual escondia uma das mãos, enquanto cumprimentava a viúva e família com a outra.

Dirigia-se depois a uma determinada porta por onde desaparecia. Voltava e aspergia o falecido com água benta de uma caldeira colocada aos pés da urna.

E as idas e vindas eram tantas que o corpo de tão aspergido, estava literalmente encharcado. Escorria!

Percebeu o que se passava, quando uma recém chegada, ao apresentar condolências, retirou a mão escondida e, apresentando uma garrafa de vinho à viúva, diz:

- Bá, bebe um bocadinho p’ra ribares!