Nos anos da década de 1930, deu-se uma revolta entre o povo do Roxico, porque desapareceu o Diabo que o seu padroeiro, S. Bartolomeu, acorrentava.
As gentes do lugar, recordando-se de que em tempos, o Padre Morais tinha dito que era escusado o Santo ter ao lado o ajudante, porque aquilo era feio, acusou um irmão do Sr. Padre de o ter feito desaparecer e exigiu a sua volta à corrente do Santo.
Os dias foram passando e o facto, é que o diabo não aparecia. Os ânimos azedaram e a desconfiança, tal belzebu à solta, minou o bom viver das gentes do lugar. O povo exigia na rua o seu “diabito” de volta e, era tal o mau viver que o padre Morais tinha justos receios de sair à rua. Certa ocasião, a Maria do Canto, salta-lhe ao pescoço e grita:
- Óh Senhor Prior, c'um caralhão! Queremos cá o nosso diabito!
O Prior ficou estarrecido mas, ao certo, ele não sabia o motivo de tal desaparecimento. Afinal, como teria desaparecido o Diabo?
Ora, os rapazes de Canelas sempre tiveram grande atracção pelos serões do Roxico e, não havia desfolhada à qual, um grupo de encapuzados nos seus gabões, se não fosse meter com as raparigas do lugar.
Certa noite, a caminho e perto da capela de S. Bartolomeu, o grupo parou para se aliviar. Um dos rapazes, deu a volta à Capela e, enquanto esvaziava a bexiga, olhou através de uma janela e viu o Santo com o ajudante acorrentado. Com artes do demónio, conseguiu abrir a janela e retirou o Diabo.
Era uso os encapuçados darem a cheirar às raparigas, qualquer coisa que levavam para o efeito, normalmente flores, ervas de cheiro, fruta ou, objectos pessoais, alguma coisa que as ajudasse a identificá-los. O amigo que roubara o Diabo, não esteve de modos e deu a pequena estatueta a cheirar. O odor “de igreja” que exalava, levou à desconfiança e uma delas, por entre a pouca luz dos candeeiros a petróleo, conseguiu ver o Diabo.
E foi o diabo no lugar. As raparigas começaram a gritar que era o diabo, que era o diabo e, os rapazes, puseram-se em fuga para Canelas, trazendo o dito de recordação.
O tempo não acalmou as gentes do Roxico que continuou a exigir ao Padre Morais o seu diabo de volta. Este, e como o dito continuava à solta no Roxico, para calar o sururu, comprou um Diabo igual ao desaparecido e só assim terminou a revolta.
A rapaziada de Canelas, temerosa de vir a ser descoberta, resolveu desfazer-se do “santo” companheiro, atirando-o ao poço do Ribeiro. E foi o diabo para o afundar. Só depois de amarrado a uma pesada pedra o conseguiram esconder no fundo das águas do nosso esteiro.
Coisas do demónio!
Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006
O Diabo à solta
Publicada por
AC
em
10:19 PM
Etiquetas: Contos da Barbearia


