Ia a noite velha e o relógio já batera as duas quando os engaboados de Canelas se puseram a caminho de casa, felizes das esperanças que as duas jovens moças de Fermelã, por entre murmúrios segredados, espigas vermelhas descamisadas, risos e olhares cúmplices, tinham feito despontar.
Correra-lhes bem a noitada e por isso vinham ligeiros, conversando alegre e descontraidamente, riam, anteviam futuras felicidades, de como tinham passado a perna aos outros serandeiros, particularmente aos da terra que viam assim as suas moças mais bonitas namoradas dos de Canelas. Definitivamente, corria-lhes bem o ano de 1932.
Ao fundo da descida do Cabriteiro, um lugar tenebroso, por onde serpenteia um estreito carreiro de areal entre altos pinheiros, carvalhos e austrálias, abrigando o luar e o Diabo do Roxico – vade rectro Satanás - que, fugido ao seu guarda, cavalga os ventos que zigzagueiam por entre as ramas do arvoredo, semeando o terror em toda a criatura viva, e o piar do Corujão prenuncia a morte que vagueia errante na escura humidade dos caminhos que Jesus não percorreu, os dois rapazes foram trespassados por um calafrio.
Um súbito restolhar junto ao regato fá-los estancar receosos. Do meio dos arbustos que se agitam saltam quatro mafarricos encapuzados – t’arrenego Belzebu, ai Jesus cruzes canhoto - empunhando rudes e ameaçadores cacetes que se plantam na sua frente, cortando-lhes o caminho. Separados por uns palmos de terra, os de Canelas enfrentam os seus verdugos.
Num silêncio de morte, os encapuzados riscam o caminho de areia traçando uma linha de berma a berma. Apenas se ouve o sibilino som do pau que ao riscar o caminho, ressoa e faz reluzir as pedras. As corujas calam o pio perante o espírito imundo.
A medo, o luar espreita por entre o arvoredo iluminando a fantasmagórica cena. Os de Canelas estão hirtos e quedos, ossos gelados do frio do inferno. Está visto que os de Fermelã não lhes perdoaram o atrevimento e como as afrontas não se levam para casa, vai ser paga a ofensa e lavada a honra na descida do Cabriteiro.
E quem lhes poderá valer, num local onde nem as almas penadas vagueiam? E quem lhe poderá acudir ou ajudar a erguer os muitos ossos partidos pela certa? Ou apanhará os seus restos na manhã seguinte?
A medo, um dos Canelenses, com voz embargada e trémula, aponta para a linha marcada no chão e pergunta:
- Qu’é qu’isso quer dizer?
Os de Fermelã, confiantes da sua supremacia e na valentia que a desproporção de forças incute, refonham entre si e, levantando os marmeleiros, fazem menção de iniciar o ajuste.
Os de Canelas, de almas aviadas, balbuciam uma prece e, antes que os paus desabem nas suas cabeças, num movimento ágil, um dos jovens - marinheiro em férias - puxa a arma que tem distribuída e dispara dois tiros para o ar.
Como um bando de aves que levanta do restolho, em fuga desenfreada Cabriteiro acima, aos quatro encapuzados, juntam-se mais dois que, a distância prudente e ao abrigo de um velho carvalho, estavam de reforço.
Por entre o barulho da restolhada, o de Canelas ainda lhes gritou:
- Venham cá, venham cá explicar o qu’é qu’o risco quer dizer?
A pergunta ecoou monte acima, mas nem o Diabo do Roxico lhe deu resposta.


