João Picinha já não aguentava mais o diabo da sogra. Raio de vida, um inferno, sempre a ouvir resmungos e más palavras a propósito de tudo e nada. Uma lengalenga que não tinha fim, não havia um Demo qu’a levasse p’ras profundezas.A velha, aperreada, amparada aos dois paus que a seguravam, perseguia-o, com maus olhados e piores acções. De quando em vez, usava os cajados para lhe bater, a ele que sempre se guiara pelo princípio de que, a mulher e a mula é o pau que as cura, levava porrada de criar bicho, que a sogra, sem dó, vingava no seu corpo o azedume que a vida sofrida parira.
Não se mostrando Deus apressado, o Picinha matutou um jeito de abreviar a passagem. Concebeu um engenhoso plano que consistia em levantar os varais do carro de bois e sustê-los no ar de forma a que, quando a sogra passasse, os paus a que se amparava tocassem na vara que os equilibrava e, estes desabassem em cima da alma danada.
E se bem o pensou, melhor o fez. Montou a ratoeira e esperou. Havia de ser perdoado no além, tantas as humilhações, tantos os maus-tratos que sofrera. Bem se lembrava daquela vez em que a bruxa descobriu que não fora o cão, o Rançoso, que partira a torneira à pipa do vinho e este se perdera no chão, uma pipa cheiinha, um prejuízo e tanto, ele que, sim, tinha-a bebido inteirinha e muito tinha chorado aquele resto que teve de deixar, para despejar no chão da adega. A tareia qu’ela lhe tinha dado, os nomes que lhe chamara. Ou daquela outra vez, às voltas com umas sardinhas de barrica p’ro almoço, a filha lhe recomendou que se não esquecesse de dar os bifinhos ao gato. O João deu as sardinhas ao gato e comeu-lhe os bifes; dizia-lhe depois que o gatinho não comera mais porque não quisera. C’um caneco, haveria de se fazer justiça.
Olhou ao longe e viu que os varais tinha caído. Bem que se diz que Deus não dorme. Livrara-se do martírio. Animado pela ânsia de ver o cadáver ao estafermo, estugou o passo.
Deu com o Rançoso esmagado sob o peso dos varais e muito lhe pesou a consciência. Ainda se lamentava e desculpava junto ao falecido:
- Isto não era bem p’ra ti caralho, sabes bem que não era p’ra ti pobre de Cristo - quando a velha lhe desfechou a primeira pancada, cabeça abaixo, das muitas que haveria ainda de levar até ao fim do seu calvário.

