Na primeira metade do século passado, bem antes das televisões começarem a embrutecerem-nos com serões mais ou menos idiotas que nos vão aparvalhando a ideia, aqui pela Aldeia, as noites eram passadas entre família e amigos.
Os serões de Inverno tinham residência fixa, juntando novos e velhos, conversava-se, namorava-se, trabalhava-se e aprendia-se. Por essas noites, muito namoro se urdiu, muito casamento se acertou e muita coisa má se teceu.
Tinha-mos, entre outros, os serões, das Ticas, do Rolo, das Galinheiras, das Maginárias, do Pelágio, da Laura Banqueira, das do Pedro, do Resende, da Deolinda Costa, nos quais se aprendia a dançar o velho vira e se fiava a lã e, também o linho e, o das Maias, onde se combinavam e ensaiavam as contradanças.
Ali à Barreira, aconteciam igualmente uns serões muito populares e concorridos. Na família havia duas jovens casadoiras, inclinadas por dois irmãos que frequentavam os seus serões. Estes, no entanto, não correspondiam aos arrufos afectivos das duas donzelas, o que lhes ia moendo a paciência e azuquinando os dias.
Certa ocasião, rentinho à noite, os dois pretendidos, foram espreitar as moças. Engaboados e cosidos com os muros no lusco-fusco do final do dia, foram-se aproximando. Uma estranha lengalenga aguçou-lhes o engenho e, muros adentro, puseram vista nas raparigas que ao fogo, em volta de uma sertã, fritavam sapos que atiravam vivos para o azeite fervilhante.
Os anuros, ao caírem no azeite fervente guinchavam; Chiiiii Chiiiii Chiiii…, ao que as donzelas replicavam:
- Traz-mos aqui, traz-mos aqui!
Chiiii Chiiii Chiiii
- Traz-mos aqui, traz-mos aqui!
O azeite da fritura é de seguida junto com farinha e ademais condimentos e vertido numa forma que foi p’ro forno da lareira. Os irmãos, concluíram que aquilo só poderia ser obra má e abalaram.
Noite adiante, a meio do serão, as raparigas vêm oferecer bolo aos presentes, o que é muito louvado, desfazendo-se os convivas em elogios às simpáticas doceiras que foram muito cumprimentadas pelos seus dotes culinários. Os dois rapazes, sabendo da marosca, foram-se escusando; que tinham ceado muito, qu’até ‘tavam um bocadinho enfartados mas, p’ra não fazer desfeita, levariam uma fatia para comer logo mais.
Atiraram-na ao Buíça, uma cão mal amanhado e pouco dado a pieguices, que lhes guardava os pertences.
Horas depois deram por falta do bicho.
- Óh Buíça, toma!
- Anda aqui, cão!
Viraram a rua, o aido, os currais, capoeiros…, nada. O Buíça, levara sumiço.
Quando, dias depois, voltaram ao serão da Barreira, deram com o burgesso do Buíça deitado à porta das raparigas, alma feita em fanicos de tão enfeitiçado, que por lá acabou os dias.


