Quinta-feira, 31 de Agosto de 2006

Ao nosso saudoso Ti Jorge


Ti Jorge Sapateiro, porque da profissão lhe ganhou o apelido, foi um homem singular na minha aldeia. Encarnou o espírito da liberdade e da boémia que a aldeia entre dentes criticava mas em surdina invejava. Nunca se subjugou a nada, ou a alguém, viveu a sua vida conforme a entendeu viver, sem tempos marcados, ao correr dos anos, dos dias bons ou maus, de tempos magros ou fartos.

Imaginativo e de resposta pronta, Ti Jorge foi à nossa infância, o meu herói. As suas carraspanas eram tão célebres como o seu violão e, as suas façanhas perduram na memória colectiva da aldeia.

Os nossos fracos calçados, eram por ele reparados até que mais não tivessem arranjo. Nos amontoados de rijas botas, velhos sapatos, chancas e tamancos que enchiam a sua oficina, se encontravam os nossos que Ti Jorge, sem mesmo saber quais eram, sempre dizia:

- Vem buscar amanhã, qu’inda falta engraxar.

E por vezes depois de muitas idas p’los sapatos, entregava-nos um enquanto recomendava.

- Levas este que já está pronto e vens amanhã buscar o outro!

....

Certo dia, estava Ti Jorge, sentado numa valeta a curar-se de uns copitos mal medidos, vociferando contra o mundo em geral e em termos menos próprios, para ouvidos mais sensíveis.

"Alhos" p’raqui, p’racolá, que se “cozam” estes e aqueles, vão todos p’ró…, quando surge no caminho o nosso saudoso médico Dr. Albino Sá.

Um passante, abeirando-se de Ti Jorge, diz-lhe:

-Ti Jorge, não diga mais asneiras que vem aí o Dr. Albino.

- O Dr. Albino? É um grande homem! Um amigo do coração! Um sábio! O Dr. Albino é o melhor homem de Canelas! É o pai dos pobres!

Continuou a babar o distinto médico com todos os elogios que lhe foram passando pela cabeça. Entretanto, o Dr. Albino no seu caminho, foi-se aproximando e, quando chega junto de Ti Jorge, este exclama:

- O Dr. Albino é o melhor médico do mundo! É o salvador dos doentes! O Dr. Albino é um professor! É um homem de linha! É um homem de letras! O Dr. Albino é..., um homem do caralho!

....


No fim de contas, todos nós quereríamos ter sido tão livres como Ti Jorge mas, nunca tivemos a coragem necessária para o sermos.

Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006

Da minha parte...,


Aos amigos que por aqui passam e particularmente, aos que apoiaram esta questão do depósito das lamas da Etar em terrenos da minha aldeia quero dizer-vos que a questão estará, da minha parte, encerrada e só à mesma voltarei caso seja estritamente necessário.

É de inteira justiça referir publicamente, é uma questão de seriedade moral e intelectual que o caso chegou a instâncias nacionais e foi ordenada a sua investigação. Pela mesma razão devo dizer que a CME após conhecer o facto actuou da forma que julgou adequada. É pois justo, que se diga publicamente que autoridades e poder tomaram medidas. Apenas os ambientalistas ficaram de fora deste caso.

Agradecendo à imprensa, concretamente ao JN a divulgação que fez, e que seguramente, contribuiu para apressar medidas e alertar consciências, resta esperar a divulgação das conclusões, na esperança que facto similar, se não volte a repetir.

Voltarei sim, às questões ambientais da minha terra porque são muitas e complexas.

A todos, a gratidão da minha aldeia e particularmente, a minha.

Segunda-feira, 28 de Agosto de 2006

Ainda o ambiente

Correndo o risco de me tornar repetitivo e com isso desinteressar os meus visitantes, por uma razão de creio, justa indignação, volto à questão dos depósitos das lamas da Etar e de forma mais lata, ao problema da poluição e contaminação ambiental que por aqui se verifica.

Não estou certo que as descargas tenham parado mas, já não são tão visíveis os camiões que operavam durante o dia e à vista de todos nós. Se continuam, será agora a horas mortas ou mesmo durante a noite.

Parece-me certo que o que cá está e não é pouco nem bom, já por cá ficará. A nossa qualidade de vida terá sofrido mais um golpe traiçoeiro, feito na ganância de uns poucos, ficaremos mais poluídos, mais envenenados, socialmente marginalizados, uma pequena aldeia – como me dizia esta manhã um jornalista – de gente habituada a viver no meio da porcaria. É esta a imagem com que de nós, ficará o país.

E no entanto não é assim. A esmagadora maioria dos habitantes de Canelas, é boa gente, honrada, trabalhadora, limpa e asseada. Mas, sem dúvida que a minha aldeia, substantivamente, ficou mais suja.

Aguardemos o desfecho para avaliar o processo e a extensão da imputação de responsabilidades, sabendo à partida que em Portugal, a culpa morre habitualmente solteira.

Na origem de todo este processo, estará o dinheiro, na forma de uma qualquer empreitada de limpeza da estação de tratamento. É óbvio que não terão sido os responsáveis da mesma que sonharam com uns terrenos a 60 Kms de distância onde poderiam impunemente depositar os lixos que processam.

Há seguramente um intermediário, conhecedor dos locais e, resta saber, se não há autorização para despejo dos mesmos. É que se a operação é clandestina, o crime será restrito aos operadores; se há autorizações, o leque de responsáveis alarga-se e a dimensão do crime é outra.

O que é certo é que tendo soado o alarme, de imediato um dos envolvidos – contaminador e poluidor destacado e referenciado desde há muitos anos e a quem nunca aconteceu nada – já tratou de disseminar a porcaria nos terrenos lagunares e fechou a propriedade a cadeado. Logo que subam as águas, teremos uma contaminação fecal na área.

Os poucos habitantes da Aldeia que desprezando elementares regras de higiene, respeito por si mesmo e pelos outros, despejam lixos e fossas para os terrenos e braços da ria e neste aspecto a zona lagunar está putrefacta – basta olhar e cheirar o esteiro dos espanhóis o qual se tornou vazadouro público de tudo o que é lixo, - argumentam que despejam no que é deles.

Como se, contaminar terras e águas fosse um direito de cada um. Como se conspurcassem somente o que é seu e não envenenassem a vida de todos nós. É no fim de contas, o resultado de maus hábitos continuados que nunca foram contrariados ou impedidos, instituindo-se como direitos adquiridos.

Na hora do fecho destas contas, questionar-se-à o papel das autoridades, do poder local, autárquico, das secretarias de estado e, dos famosos ambientalistas que tanto porfiam nos negócios ambientais. Finalmente, como se aplicam as tão propaladas políticas ambientais que tanto dinheiro custam e pelo visto, tão pouca eficácia revelam.

Domingo, 27 de Agosto de 2006

Sem Rumo

E temos um novo blog de Canelas. Uma outra voz para falar da nossa terra, das nossas gentes, dos nossos problemas, das nossas alegrias e tristezas.

Seja então muito bem-vindo o nosso amigo CM e o seu Sem Rumo, ás lides bloguísticas e à defesa da nossa pequena aldeia que bem precisa de vozes que a apregoem por este mundo de Deus.

Pessoalmente, saúdo entusiasticamente o nascimento do Sem Rumo. Somos tão poucos em Canelas que ter, até ao momento dois blogs adultos, é algo que muito de alegra.

Queiram os meus amigos e visitantes fazer o favor de visitar esta nova casa na qual serão desejados e bem recebidos.

Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006

Crimes ambientais

Oito dias passados sobre a denúncia pública dos despejos de lamas nos terrenos agrícolas e lagunares da minha aldeia, não há qualquer resultado prático. Acabo de me cruzar com mais um camião de bosta, acabadinha de ser depositada.

Apesar das diligências que já foram feitas pelas entidades envolvidas, apanho eu mais depressa os infractores, do que a polícia. Aliás, estes não se escondem, passeando as cargas pestilentas pelas ruas da aldeia.

É isto Canelas, Estarreja, no sítio designado, Portugal.

Terça-feira, 22 de Agosto de 2006

Crimes ambientais


Apesar de ser uma terra de muitas nascentes de frescas e boas águas, não há hoje em Canelas uma única nascente ou fonte cuja água seja potável.

Os fertilizantes, fossas, lixos e agora, dejectos fecais que são lançados para as terras, os lixos deixados nas beiras dos caminhos, contaminaram totalmente o meio ambiente. Não saberei até que ponto a elevada taxa de mortes por cancro que por aqui se verifica e de que já falei anteriormente, não se relacionará com este envenenamento ambiental.

A impunidade reinante estimula os mais ignorantes ou menos escrupulosos, a irem cada vez mais longe, a poluírem, a envenenarem cada vez mais. A passividade geral, o encolher de ombros perante tais crimes são um incentivo à sua continuidade.

O nosso campo – zona lagunar – anteriormente um viveiro de peixe, não tem hoje uma enguia e se alguma aparece, já não é comestível.

Não temos hoje em Canelas um local aprazível, limpo, cuidado, que possamos mostrar aos amigos ou, onde possamos receber quem nos visita. O nosso Ribeiro, que foi a nossa sala de visitas, é hoje um enorme depósito de lixos domésticos e restos de materiais de obras.
A inveja é uma coisa muito feia, mas quanta tenho da Ribeira da Aldeia, em Pardilhó.

Segunda-feira, 21 de Agosto de 2006

ExCitações



“O projecto Bioria é ferramenta relevante na conservação do património natural e sensibilização ambiental das populações.”

“Criado com o intuito de revelar e proteger o património natural do Concelho de Estarreja, este projecto visa ainda formar e sensibilizar as populações para a conservação da natureza e preservação do meio ambiente.”

Fotografia: parte final do Esteiro Velho, em Canelas - Estarreja

Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

Com toda a impunidade



A instrução e a civilidade são essenciais para podermos viver harmoniosamente.

Vem isto a propósito dos crimes ambientais de que falei no post anterior. Voltando aos locais do crime, a extensão do mesmo é impressionante. Nas Sergilas, nas Arrotas, no Canto das Arrotas, na Manteira, na Mata e nos Morangais podem ver-se terrenos cobertos com grossas camadas destas lamas que chegam a atingir metro e meio de altura. São muitos camiões de merda, distribuídos ao longo de muitos terrenos agrícolas. O cheiro é nauseabundo.

A Etar conseguiu livrar-se de muitas toneladas de resíduos ao custo do seu transporte. Para piorar as coisas e na mesma zona, vi hoje agricultores a regarem os terrenos com resíduos de fossa.

E tudo isto se passa impunemente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. A chuva tudo lava e a terra tudo come.

Por falta de instrução, estas pessoas não saberão que todos os poluentes que lançam à terra acabam por entrar na cadeia alimentar, ou seja, acabamos a comer e a beber a merda que lançam para os terrenos.

Quanto à civilidade, tudo isto se passa em zonas agrícolas e de nascentes aquíferas que estando já poluídas, ficarão envenenadas. Tudo isto se passa na maior impunidade porque apesar da denúncia, a autoridade não actua. Porque se os agricultores são inconscientes – alguns o serão – a autoridade e o poder político, não o poderão ser.

Não me parece que a aplicação de coimas aos agricultores resolva o problema. No caso concreto, a Etar deverá ser obrigada a retirar as lamas que aqui veio depositar. Os agricultores, deverão ser elucidados sobre as consequências que advêm de actos irreflectidos que a todos, por igual, prejudicam.

Terça-feira, 15 de Agosto de 2006

Crimes ambientais


Uma Etar, diz-se, sedeada na zona de Gaia, tem descarregado uns camiões de lamas não tratadas em terrenos da minha aldeia. Pelo cheiro nauseabundo que exalam, percebe-se que se trata essencialmente de dejectos fecais. Custando caro o equipamento para tratamento das ditas, é muito mais económico distribuí-las pelos incautos.

Foi o que aconteceu. A esperteza saloia dos responsáveis da Etar, aliada à ignorância de quem acredita de que merda é um bom fertilizante, resultou numa camada com meio metro de altura da dita, depositada em diferentes terrenos agrícolas.

Como não houve consequências para a Etar ou para os proprietários dos terrenos, fica aqui o aviso: se as lamas fossem bons fertilizantes, as estações de tratamento vendiam-nas.
..............

Aqui pela aldeia, não há um local para depósito de lixos, pelo que as bordas dos esteiros e dos caminhos, apresentam-se como verdadeiras lixeiras. É confrangedor, o que se passa. Parece que estamos a viver dentro de uma enorme lixeira. Poderia a CME ajudar a Junta de Freguesia a resolver esta questão?
...............

A época de caça iniciou-se então hoje. Nas Arrotas e no espaço que o olhar abrange, contavam-se facilmente 200 armas. Os caçadores distavam 20 a 30 metros uns dos outros. Quase tudo gente de fora. O espingardeiro da zona, não saberei porquê, mas presume-se que para fazer o seu negócio, anuncia ao vento que Canelas está cheia de caça. Mataram-se literalmente meia dúzia de rolas mansas e, um bando de pombos, igualmente mansos que sobrevoou a zona, foi totalmente dizimado.

Assim se constata a índole destes caçadores, a eficiência do Clube de caçadores de Avanca na fiscalização e no repovoamento das espécies.

Segunda-feira, 7 de Agosto de 2006

Outra vez a barbárie

Dentro de oito dias, recomeça a barbárie, ou seja, abre a caça. Da pouca ou nenhuma caça que ainda possa existir. Mas, o negócio das licenças, das armas e munições aliado à inconsciência de alguns bárbaros que vêm nos animais abatidos a materialização do seu marialvismo ou a oportunidade de dar livre curso aos seus instintos mais animalescos, assim o determina.

Acredito que seja uma actividade em declínio. As gerações mais novas já têm outra consciência e não se seduzem com este tipo de mortandade. Aqui pela minha aldeia, já houve muita caça. Hoje é um perfeito deserto. Vem gentinha de longe que atira a tudo o que mexe. Não há qualquer respeito por épocas, espécies e nem mesmo pelos habitantes. Até as rolas turcas que se poisam nos fios da minha rua, são abatidas sem piedade, agora que as bravas estão extintas, aniquile-se igualmente as mansas.

Por aqui, a situação é ainda mais caricata, já que a caça se pratica sem regras em plena zona de protecção às aves, ou seja, na zona da bio-ria. As práticas são de todos conhecidas, basta ver aqui, ou aqui, mas, ninguém faz nada.

Um destes governos, arrecadando os dinheiros das licenças, atirou a responsabilidade da gestão da caça para os clubes de caçadores, ou seja, enfiou o ladrão dentro do cofre. Estes tratam de emitir licenças, determinar zonas e por aí se ficam. Não há fiscalização, não há controlo, não há gestão. No caso, ao clube de caçadores e pescadores de Avanca que, ao que se pode observar, não terá meios ou competências para disciplinar a actividade. Eu, pessoalmente, nunca vi qualquer acção de fiscalização. Ainda no fim-de-semana passado ouvi tiros de madrugada na zona lagunar e, um bando de patos que andava ali nas terras de arroz da Poceira, desapareceu.

A caça, enquanto desporto de caçadores que respeitam as regras e as espécies é tão respeitável como qualquer outro e, também aqui, não de deve meter todos os caçadores no mesmo saco. Infelizmente, talvez devido à escassez, caça-se clandestinamente, com técnicas proibidas a qualquer dia ou hora. Entregues à anarquia, esperemos que os Homens se consciencializem e ganhem o respeito que os animais e a natureza nos devem merecer. Certos de que até lá, muitas espécies desaparecerão para sempre.