
Ti Jorge Sapateiro, porque da profissão lhe ganhou o apelido, foi um homem singular na minha aldeia. Encarnou o espírito da liberdade e da boémia que a aldeia entre dentes criticava mas em surdina invejava. Nunca se subjugou a nada, ou a alguém, viveu a sua vida conforme a entendeu viver, sem tempos marcados, ao correr dos anos, dos dias bons ou maus, de tempos magros ou fartos.
Imaginativo e de resposta pronta, Ti Jorge foi à nossa infância, o meu herói. As suas carraspanas eram tão célebres como o seu violão e, as suas façanhas perduram na memória colectiva da aldeia.
Os nossos fracos calçados, eram por ele reparados até que mais não tivessem arranjo. Nos amontoados de rijas botas, velhos sapatos, chancas e tamancos que enchiam a sua oficina, se encontravam os nossos que Ti Jorge, sem mesmo saber quais eram, sempre dizia:
- Vem buscar amanhã, qu’inda falta engraxar.
E por vezes depois de muitas idas p’los sapatos, entregava-nos um enquanto recomendava.
- Levas este que já está pronto e vens amanhã buscar o outro!
....
Certo dia, estava Ti Jorge, sentado numa valeta a curar-se de uns copitos mal medidos, vociferando contra o mundo em geral e em termos menos próprios, para ouvidos mais sensíveis.
"Alhos" p’raqui, p’racolá, que se “cozam” estes e aqueles, vão todos p’ró…, quando surge no caminho o nosso saudoso médico Dr. Albino Sá.
Um passante, abeirando-se de Ti Jorge, diz-lhe:
-Ti Jorge, não diga mais asneiras que vem aí o Dr. Albino.
- O Dr. Albino? É um grande homem! Um amigo do coração! Um sábio! O Dr. Albino é o melhor homem de Canelas! É o pai dos pobres!
Continuou a babar o distinto médico com todos os elogios que lhe foram passando pela cabeça. Entretanto, o Dr. Albino no seu caminho, foi-se aproximando e, quando chega junto de Ti Jorge, este exclama:
- O Dr. Albino é o melhor médico do mundo! É o salvador dos doentes! O Dr. Albino é um professor! É um homem de linha! É um homem de letras! O Dr. Albino é..., um homem do caralho!
....
No fim de contas, todos nós quereríamos ter sido tão livres como Ti Jorge mas, nunca tivemos a coragem necessária para o sermos.







