
Esta manhã, sobre a geada que cobria o meu jardim, estava um jovem melro, morto. O corpo de uma ave nova e bem constituída, sem ferimentos visíveis, repousava sobre a relva gelada.
Atribuo a sua morte ao paulatino e sistemático envenenamento da natureza. Espalhamos veneno por tudo o que é sítio, desde a contaminação industrial que o parque químico de Estarreja espalhou por toda esta zona, passando pelos fertilizantes e químicos diversos utilizados na agricultura, à porcaria que para aqui é transportada porque é mais barato deixá-la nos nossos terrenos, ao arrepio da lei, do que pagar o seu depósito nos locais próprios.
Que um melro não tem importância. Que os caçadores os abatem às dezenas por puro divertimento. Poderá ser. A espécie humana é a mais insana e perigosa do planeta. Antes dos melros muitas outras espécies já foram extintas.
Mas vamos percebendo que toda a porcaria que produzimos, acaba a entrar-nos para a boca. À imagem dos aviários, onde as aves comem os seus próprios excrementos, também nós, os humanos, vamos comendo das fezes que produzimos.
Construímos uma sociedade cheia de confortos, facilities, comodities, e doenças, não restando dúvida de que, o que comemos também nos vai matando. Dir-me-ão o óbvio; que se não comermos morreremos mais depressa. Seguramente!
Mas, morrer naturalmente porque chegou o nosso dia, é o natural fecho de um ciclo; morrer a meio da vida, ao fim de anos de indescritíveis e desumanos sofrimentos, infligidos aos próprios e aos que os rodeiam, apodrecidos pelos químicos que vão ingerindo e, os que lhes vão sendo ministrados, é outra.
Tudo isto a propósito da morte de um melro e, do conhecimento que vamos tendo sobre os métodos que, criadores de gado, agricultores e industriais do ramo alimentar, vão utilizando para produzirem em meia dúzia de meses, o que a natureza levaria muito mais tempo a fazer crescer. Tempo demasiado para quem procura fazer dinheiro, muito e rapidamente, sem olhar a meios.
Das vacas loucas, aos frangos com nitrofuranos, animais carregados de antibióticos, peixe criado a ração, utilização indiscriminada de substâncias proibidas, vegetais carregados de pesticidas, solos e águas contaminados, restaurantes a servirem alimentos putrefactos, é um nunca mais acabar. Uma orgia para quem está no negócio de vender comida ao mundo.
Segundo o Público de hoje, muitos milhares de infracções detectadas pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, desde há um ano, não sofreram qualquer condenação - e nem vou detalhar os motivos – ligados à modernização e outras inépcias funcionais. Cerca de 10.000 processos que deram em nada.
A EU vai-se mostrando preocupada e incentiva a produção biológica. Seguramente, num futuro bem próximo, apenas esta agricultura será encorajada e subsidiada.
No nosso país, continua-se a assobiar para o ar, a olhar para o lado, e a despejar a céu aberto toda a imundice, como se tal fora, a coisa mais natural do mundo. E continua-se a morrer de doenças terríveis e da falta de meios para as tratar.
Num post anterior, falei do elevado número de óbitos na aldeia provocados por cancro. Segundo o Infarmed, o cancro gástrico é a segunda causa de mortalidade por cancro no mundo e, a primeira em Portugal com 3.700 novos casos por ano, sendo que apenas 2 a 3% desses, são hereditários.
Será apenas coincidência? As alfaces biológicas serão apenas um vegetal de valor acrescentado? Ou vamos continuar a pensar que só sucede aos outros?