Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006

2007



Na infância vivemos momentos de incrível felicidade. Depois, o coração parte-se-nos.

Gostaria de Vos desejar um Feliz e Próspero Ano de 2007,

Mas, realisticamente, sei que poucos poderão desfrutar destes Votos.

Infelizmente, alguns perderão a vida, os empregos, a saúde, as suas vidas sofrerão alterações profundas, serão assaltados, roubados e vilpendiados.

Continuarão a ouvir as balelas desgastadas acerca do tal futuro melhor, pagarão mais impostos, perderão poder de compra, o acesso aos cuidados de saúde será mais difícil e caro, continuarão a matar-se nas estradas e, alguns morrerão nos serviços de urgência de hospitais sobrelotados, enquanto esperam. O custo de vida subirá enquanto o dinheiro para o pagar, diminuirá.

Continuarão a defender e a votar nos que controlam a sua vida, nos que tomam as decisões que os vão tornando mais pobres, nos que aumentam salários 2% e o pão 20%, nos que lhes fecham escolas, hospitais e maternidades e, lhes reduzem a assistência para que os lucros possam crescer 50%.

Alguns sortudos, talvez ganhem o euromilhões.

Quanto aos outros, não perdem nada em tentar encontrar a felicidade e a prosperidade em 2007.

Terça-feira, 26 de Dezembro de 2006

Burros à beira mar

Estes concursos de perguntas de algibeira sobre conhecimentos gerais, em que os concorrentes escolhem a resposta entre as sugestões apresentadas, tal é o caso do “Um contra todos” que a RTP, certamente no mais profundo sentido de serviço público, e procurando animar a nossa depressão colectiva, alegremente transmite, vão-nos elucidando sobre a qualidade do ensino em portugal e, sobre as qualificações do povo que por aqui habita.

Tendo em conta os recuros humanos e financeiros que o país afecta ao ensino, a ignorância que diariamente por ali trespassa, é inexplicável assim como, incompreensíveis as razões que levam pessoas verdadeiramente obtusas, exporêm-se ao ridículo nacional. Mais do que pobreza económica, será miséria intelectual.

Dando de exemplo uma senhora licenciada numa porcaria qualquer relacionada com terapias da fala, a dita, um verdadeiro hino à ignorância, acabou eliminada ao fim de meia dúzia de perguntas idiotas cujas respostas, se aprendiam antes de se completar a antiga quarta classe.

Vem isto a propósito da tão discutida reforma – mais uma - do ensino e mais concretamente, do processo de Bolonha. O governo pretende aumentar o número de licenciados, parece que, da mesma forma que aumentou a qualificação profissional dos portugueses. Distribuindo milhões e obtendo resultados nulos. Aliás, um governo que manda repetir exames porque o número de alunos aprovados é reduzido, dá indicações precisas acerca da sua ambição e do que pretende para o nosso futuro colectivo.

A senhora referida, licenciada e a exercer actividade profissional, julgo que, junto de crianças, reprovaria no exame da antiga quarta classe. O processo de Bolonha, visa “modernizar” o ensino superior, entenda-se, facilitar a distribuição de diplomas universitários, não fazendo grande questão quanto à efectiva aquisição de competências. O importante, é que cada cidadão seja um diplomado. Ora, aferindo as condições, a RTP bem que poderia transformar estes concursos em aulas, atribuindo uma licenciatura a quem respondense a todas as perguntas, ou antes, a quem escolhesse a resposta correcta a todas as questões. Seria uma contribuição significativa para se alcançarem as metas propostas para o ensino.

Estamos no bom caminho. Salvaguardando as excepções, rapidamente, deixaremos de ser um país de analfabetos e passaremos a ser um país de burros licenciados.

Sábado, 23 de Dezembro de 2006

Natal dos Simples

Lembras-te mãe, do nosso Natal? De como m’o, tornavas misterioso e Santo? Que nascia o Menino Deus e por isso, devíamos ir à missa pela noite adentro. Voltava-mos enregelados do frio cortante da nossa aldeia mas tu ateavas a lareira da velha cozinha e o crepitar da lenha a arder, aquecia-nos o corpo e a alma. Ceava-mos o bacalhau da loja da Ti Ducília, cozido com couves e batatas da nossa horta, e tínhamos aqueles doces de abóbora a que já esqueci o nome. Eu sentia que era uma noite mágica e, tal era bastante para que fosse mais feliz. Que uma santidade Divina a todos nos abençoava e que ficaríamos na protecção do Menino Jesus.

A festa ainda era ao Menino, não sabíamos do pai natal que hoje o fez esquecer. As crianças de hoje são felizes de outro modo. Já não é o Menino mas sim, um velhote inventado que sobe e desce chaminés, deixando-lhes, não um, mas muitos presentes, coisas modernas, computadores, consolas, telemóveis, e outras bugigangas tecnológicas, tantos, tantas coisas que tu não conheces e, por isso, não importa que te fale delas.

Porque as prendas são tantas, cada uma mais bonita qu’outra, os meninos não lhes dão importância. Rasgam os embrulhos na excitação da descoberta, e logo as deixam por ali. Algumas vão para o lixo juntamente com os papéis multicolores que as embrulharam.

No nosso tempo não era assim e, talvez por isso, eu guardava ciosamente a mancheia de rebuçados, ou o pacotinho de nozes que o menino me deixava, e que evitava comer para os ter por muito tempo, porque aquele, era um presente muito especial, um presente do Menino Jesus e Ele, só me dava um por cada ano.

Na nossa família, os teus netos, e um bisneto, porque já tens um bisneto, já são desta era de fartura; é uma noite inteira a abrir prendas e nós gostamos de os ver descobrir o que se esconde dentro das caixas e sacos enfeitados de laços, e guardar no coração, os sorrisos das suas faces.

Lembras-te mãe? Há já muitos anos que estarás mais próximo do Menino, e por isso, apenas serás presente na nossa recordação. Desejo-te um Feliz Natal.

Tenho tanta saudade e sinto tanto a tua falta.

Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006

O crime perfeito

João Picinha já não aguentava mais o diabo da sogra. Raio de vida, um inferno, sempre a ouvir resmungos e más palavras a propósito de tudo e nada. Uma lengalenga que não tinha fim, não havia um Demo qu’a levasse p’ras profundezas.

A velha, aperreada, amparada aos dois paus que a seguravam, perseguia-o, com maus olhados e piores acções. De quando em vez, usava os cajados para lhe bater, a ele que sempre se guiara pelo princípio de que, a mulher e a mula é o pau que as cura, levava porrada de criar bicho, que a sogra, sem dó, vingava no seu corpo o azedume que a vida sofrida parira.

Não se mostrando Deus apressado, o Picinha matutou um jeito de abreviar a passagem. Concebeu um engenhoso plano que consistia em levantar os varais do carro de bois e sustê-los no ar de forma a que, quando a sogra passasse, os paus a que se amparava tocassem na vara que os equilibrava e, estes desabassem em cima da alma danada.

E se bem o pensou, melhor o fez. Montou a ratoeira e esperou. Havia de ser perdoado no além, tantas as humilhações, tantos os maus-tratos que sofrera. Bem se lembrava daquela vez em que a bruxa descobriu que não fora o cão, o Rançoso, que partira a torneira à pipa do vinho e este se perdera no chão, uma pipa cheiinha, um prejuízo e tanto, ele que, sim, tinha-a bebido inteirinha e muito tinha chorado aquele resto que teve de deixar, para despejar no chão da adega. A tareia qu’ela lhe tinha dado, os nomes que lhe chamara. Ou daquela outra vez, às voltas com umas sardinhas de barrica p’ro almoço, a filha lhe recomendou que se não esquecesse de dar os bifinhos ao gato. O João deu as sardinhas ao gato e comeu-lhe os bifes; dizia-lhe depois que o gatinho não comera mais porque não quisera. C’um caneco, haveria de se fazer justiça.

Olhou ao longe e viu que os varais tinha caído. Bem que se diz que Deus não dorme. Livrara-se do martírio. Animado pela ânsia de ver o cadáver ao estafermo, estugou o passo.

Deu com o Rançoso esmagado sob o peso dos varais e muito lhe pesou a consciência. Ainda se lamentava e desculpava junto ao falecido:

- Isto não era bem p’ra ti caralho, sabes bem que não era p’ra ti pobre de Cristo - quando a velha lhe desfechou a primeira pancada, cabeça abaixo, das muitas que haveria ainda de levar até ao fim do seu calvário.

Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

Porque eles não precisam


“Adquiram os terrenos por minha conta e por minha conta construirei o hospital-asilo, na certeza de que, debaixo das suas telhas, todos os pobres do Concelho, com necessidade de arrimo e tratamento, tenham o seu lugar.”

Foi para tratar dos pobres e acolher os mendigos que o Hospital Visconde de Salreu foi construído e equipado a expensas de Domingos Joaquim da Silva (1854-1936) que foi Visconde de Salreu, título concedido pelo período de uma vida por D. Carlos I, em agradecimento à sua filantropia. Foi um benemérito da Vila e do Concelho, já que a sua maior obra, o hospital, tem valido às necessidades da população do Concelho e mesmo do Distrito.

O encerramento do seu serviço de urgência, preconizado por um troca-tintas qualquer que afirma publicamente que nunca irá a um SAP – entenda-se que terá dinheiro para pagar outros serviços – e que possivelmente desconhecerá onde se situa Salreu, a concretizar-se, deixar-nos-á mais pobres, mais fragilizados, mais dependentes, mais carenciados e doentes.

Concentrar as urgências de uma tão vasta área no hospital de Aveiro, apenas é possível em cabeças que não fazem a mínima ideia da realidade desta região ou, apenas têm em mente liquidar o SNS e passar o negócio para os Espírito Santo, os Melo e outros eminentes salafrários.

Este indivíduo que, não sabe nem lhe interessa, quanto custará a reforma da saúde, tem o poder de destruir o nosso hospital porque nós, povo, lho demos. Este indivíduo que me abstenho de classificar, bem como todos os outros que apenas na política encontraram meio de sustentar a sua vida, estão lá porque nós, povo, lá os pusemos.

Porque aceitamos que qualquer desclassificado nos (des)governe, nos maltrate, nos insulte e nos mande abater como se faz ao gado.

A vigília que hoje à sua porta fazemos é bem intencionada mas, isto não vai lá com velas. Talvez com paus!

Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006

N'O Jumento, as lamas despejadas em Canelas

O Jumento, faz hoje eco do caso das lamas que a Terra Fértil despejou nos terrenos de Canelas, facto que, pessoalmente, muito agradeço. Este é um caso fétido a que nunca mais se vê fim e, tal não sucederá enquanto as entidades encarregues da investigação, não divulgarem o resultado das análises que deverão ter sido feitas às mesmas. E digo deverão, porque começo a duvidar de que tal tenha acontecido.

É incompreensível e inaceitável que continuemos sem saber o que por aqui foi despejado, passados que são mais de 4 meses, desde que este blog denunciou a situação.

Conforme refere O Jumento, este caso não se deverá ficar por “ um mero processo de contra-ordenação do qual resultará uma multa que será reduzida graças ao pagamento voluntário”

As autoridades tem a obrigação de:

Continuemos a aguardar, com a serenidade possível, a conclusão e os resultados cuja demora, aumenta as suspeitas de que, por aqui, não foi deixada boa coisa.


Actualização


Também o Macroscopio, a quem igualmente agradeço a divulgação, se refere hoje a este caso. Não pretendendo recontar o que está largamente descrito neste blog - links dos post na coluna da direita em Crimes Ambientais – devo no entanto esclarecer que a utilização de lamas na agricultura está devidamente enquadrada legalmente mas, o que se passou aqui, foi um despejo em desprezo total pela legislação, pelos habitantes, pelo ambiente e pela natureza.

A empresa Terra Fértil despejou muitos milhares de lamas frescas a céu aberto, segundo a CCDRC, procedentes das ETAR's de Sobreiras, Febros e Agra-Tratave, não dando cumprimento a uma só das exigências legais.

A investigação feita pelo SEPNA redundou em nada, já que aquela corporação manifestou desde o início a sua incapacidade, alegando falta de meios humanos e materiais, para acompanhar devidamente a questão. Passados alguns dias, aceitou como válidas análises às lamas que o transportador lhe apresentou e deu ordem para, no prazo de 8 dias, a empresa misturar as lamas com a terra. Das análises apresentadas, veio a CCDRC a concluir, não respeitarem às lamas depositadas, sendo portanto, falsas.

Não me conformando com a decisão e, tendo inicialmente denunciado a situação à Secretaria de Estado do Ambiente que, oficiou a CCDRC para investigar o caso e remeter as conclusões àquela Secretaria, esta acabou por delegar a investigação na sua Delegação de Aveiro.

Do que percebi através de uma carta da CCDRC, a investigação feita foi, como se diz, pela rama. Apenas foram identificados dois dos locais, não se questionando como chegou o depositante aqui nem que ramificações poderão existir. Se houve ou não autorização por parte dos proprietários dos terrenos, se houve intermediários, etc. Destas questões, dei igualmente conta à CCDRC.

Entretanto e o que me parece mais importante, por razões que desconheço, os resultados das análises às lamas, ainda não foram divulgados, ou seja, continuamos sem saber o que aqui foi despejado.

Quem conhece o país, sabe que este não foi, não é, um caso isolado. Através do país rural, vêem-se frequentemente despejos de lamas em quantidades descomunais. Percebe-se que as empresas que transportam lixos actuam com total à-vontade para despejarem o que, e onde querem, à total revelia das leis que regulam esta actividade.

Quanto aos poderes, deixo-vos com um exemplo. Um jornalista denunciou um despejo similar ao presidente de uma Junta de Freguesia do Concelho de Estarreja. A resposta foi que não tinha nada a ver com isso até porque o terreno onde se fez a descarga, era privado. E o mais grave, é que o fez por escrito.

Sábado, 16 de Dezembro de 2006

Da morte de um melro

Esta manhã, sobre a geada que cobria o meu jardim, estava um jovem melro, morto. O corpo de uma ave nova e bem constituída, sem ferimentos visíveis, repousava sobre a relva gelada.

Atribuo a sua morte ao paulatino e sistemático envenenamento da natureza. Espalhamos veneno por tudo o que é sítio, desde a contaminação industrial que o parque químico de Estarreja espalhou por toda esta zona, passando pelos fertilizantes e químicos diversos utilizados na agricultura, à porcaria que para aqui é transportada porque é mais barato deixá-la nos nossos terrenos, ao arrepio da lei, do que pagar o seu depósito nos locais próprios.

Que um melro não tem importância. Que os caçadores os abatem às dezenas por puro divertimento. Poderá ser. A espécie humana é a mais insana e perigosa do planeta. Antes dos melros muitas outras espécies já foram extintas.

Mas vamos percebendo que toda a porcaria que produzimos, acaba a entrar-nos para a boca. À imagem dos aviários, onde as aves comem os seus próprios excrementos, também nós, os humanos, vamos comendo das fezes que produzimos.

Construímos uma sociedade cheia de confortos, facilities, comodities, e doenças, não restando dúvida de que, o que comemos também nos vai matando. Dir-me-ão o óbvio; que se não comermos morreremos mais depressa. Seguramente!

Mas, morrer naturalmente porque chegou o nosso dia, é o natural fecho de um ciclo; morrer a meio da vida, ao fim de anos de indescritíveis e desumanos sofrimentos, infligidos aos próprios e aos que os rodeiam, apodrecidos pelos químicos que vão ingerindo e, os que lhes vão sendo ministrados, é outra.

Tudo isto a propósito da morte de um melro e, do conhecimento que vamos tendo sobre os métodos que, criadores de gado, agricultores e industriais do ramo alimentar, vão utilizando para produzirem em meia dúzia de meses, o que a natureza levaria muito mais tempo a fazer crescer. Tempo demasiado para quem procura fazer dinheiro, muito e rapidamente, sem olhar a meios.

Das vacas loucas, aos frangos com nitrofuranos, animais carregados de antibióticos, peixe criado a ração, utilização indiscriminada de substâncias proibidas, vegetais carregados de pesticidas, solos e águas contaminados, restaurantes a servirem alimentos putrefactos, é um nunca mais acabar. Uma orgia para quem está no negócio de vender comida ao mundo.

Segundo o Público de hoje, muitos milhares de infracções detectadas pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, desde há um ano, não sofreram qualquer condenação - e nem vou detalhar os motivos – ligados à modernização e outras inépcias funcionais. Cerca de 10.000 processos que deram em nada.

A EU vai-se mostrando preocupada e incentiva a produção biológica. Seguramente, num futuro bem próximo, apenas esta agricultura será encorajada e subsidiada.

No nosso país, continua-se a assobiar para o ar, a olhar para o lado, e a despejar a céu aberto toda a imundice, como se tal fora, a coisa mais natural do mundo. E continua-se a morrer de doenças terríveis e da falta de meios para as tratar.

Num post anterior, falei do elevado número de óbitos na aldeia provocados por cancro. Segundo o Infarmed, o cancro gástrico é a segunda causa de mortalidade por cancro no mundo e, a primeira em Portugal com 3.700 novos casos por ano, sendo que apenas 2 a 3% desses, são hereditários.

Será apenas coincidência? As alfaces biológicas serão apenas um vegetal de valor acrescentado? Ou vamos continuar a pensar que só sucede aos outros?

Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

Hoje, não há!

Ao que parece, a nossa Jukebox, foi-se, expirou, feneceu, morreu, extinguiu-se! Esperando ansiosamente o seu regresso do além etéreo, vamos ficando com Grandes Músicas Portuguesas. Daquelas que, por serem tão boas, pouca gente gosta. Uma por dia. Para hoje, há a saudosa Banda do Casaco e a sua Morgadinha dos Canibais. Amanhã, não sabemos!

Quanto a novas postagens, também não está de feição. As elogiosas referências de que o blog foi objecto no Macroscopio e no Jumento, tiveram o efeito perverso de me inibir a escrita, imaginando que o nível de exigência dos meus poucos – mas bons - amigos e visitantes, aumentou significativamente. Estou incapaz de dar ao teclado.

Das duas uma, ou vão exigir p’ra outro lado ou, tenham paciência, qu’isto passa.

Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2006

No Jumento


Bom, não sei o que se passa mas, estou babado. O nosso Notícias d’Aldeia mereceu uma referência mais que elogiosa no Rolls Royce dos blogs portugueses “ O Jumento”. Depois do Macroscopio, o Jumento. É efectivamente uma distinção que, achando não merecer, reconhecida e humildemente, a ambos agradeço.

O Jumento, é um espaço fantástico de notícia, denúncia, reflexão, informação, cultura, divertimento e lazer. Acima da imprensa escrita, vista e falada, o Jumento, por si, faz mais pela nossa saúde mental do que tudo o que se publica em Portugal.

Para com o seu autor, os portugueses têm uma divida de gratidão por tudo o que este blog tem feito por nós e, pelo país.

Por isso bem-haja!

Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006

No Macroscopio


O blog Macroscopio – para mim um dos melhores nacionais - republicou o post que há tempos atrás dediquei a meu pai. Convido os meus amigos a ler o texto do seu autor e, já agora, a incluírem nas vossas visitas este blog. Ajuda, gratuitamente, a abrir o espírito, numa missão de serviço público educacional.

Ao seu autor, Rui Paula Matos, que não tenho o prazer de conhecer, o meu agradecimento pelas suas palavras.

Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006

No caminho do Castanheiro



Ia a noite velha e o relógio já batera as duas quando os engaboados de Canelas se puseram a caminho de casa, felizes das esperanças que as duas jovens moças de Fermelã, por entre murmúrios segredados, espigas vermelhas descamisadas, risos e olhares cúmplices, tinham feito despontar.

Correra-lhes bem a noitada e por isso vinham ligeiros, conversando alegre e descontraidamente, riam, anteviam futuras felicidades, de como tinham passado a perna aos outros serandeiros, particularmente aos da terra que viam assim as suas moças mais bonitas namoradas dos de Canelas. Definitivamente, corria-lhes bem o ano de 1932.

Ao fundo da descida do Cabriteiro, um lugar tenebroso, por onde serpenteia um estreito carreiro de areal entre altos pinheiros, carvalhos e austrálias, abrigando o luar e o Diabo do Roxico – vade rectro Satanás - que, fugido ao seu guarda, cavalga os ventos que zigzagueiam por entre as ramas do arvoredo, semeando o terror em toda a criatura viva, e o piar do Corujão prenuncia a morte que vagueia errante na escura humidade dos caminhos que Jesus não percorreu, os dois rapazes foram trespassados por um calafrio.

Um súbito restolhar junto ao regato fá-los estancar receosos. Do meio dos arbustos que se agitam saltam quatro mafarricos encapuzados – t’arrenego Belzebu, ai Jesus cruzes canhoto - empunhando rudes e ameaçadores cacetes que se plantam na sua frente, cortando-lhes o caminho. Separados por uns palmos de terra, os de Canelas enfrentam os seus verdugos.

Num silêncio de morte, os encapuzados riscam o caminho de areia traçando uma linha de berma a berma. Apenas se ouve o sibilino som do pau que ao riscar o caminho, ressoa e faz reluzir as pedras. As corujas calam o pio perante o espírito imundo.

A medo, o luar espreita por entre o arvoredo iluminando a fantasmagórica cena. Os de Canelas estão hirtos e quedos, ossos gelados do frio do inferno. Está visto que os de Fermelã não lhes perdoaram o atrevimento e como as afrontas não se levam para casa, vai ser paga a ofensa e lavada a honra na descida do Cabriteiro.

E quem lhes poderá valer, num local onde nem as almas penadas vagueiam? E quem lhe poderá acudir ou ajudar a erguer os muitos ossos partidos pela certa? Ou apanhará os seus restos na manhã seguinte?

A medo, um dos Canelenses, com voz embargada e trémula, aponta para a linha marcada no chão e pergunta:

- Qu’é qu’isso quer dizer?

Os de Fermelã, confiantes da sua supremacia e na valentia que a desproporção de forças incute, refonham entre si e, levantando os marmeleiros, fazem menção de iniciar o ajuste.

Os de Canelas, de almas aviadas, balbuciam uma prece e, antes que os paus desabem nas suas cabeças, num movimento ágil, um dos jovens - marinheiro em férias - puxa a arma que tem distribuída e dispara dois tiros para o ar.

Como um bando de aves que levanta do restolho, em fuga desenfreada Cabriteiro acima, aos quatro encapuzados, juntam-se mais dois que, a distância prudente e ao abrigo de um velho carvalho, estavam de reforço.

Por entre o barulho da restolhada, o de Canelas ainda lhes gritou:

- Venham cá, venham cá explicar o qu’é qu’o risco quer dizer?

A pergunta ecoou monte acima, mas nem o Diabo do Roxico lhe deu resposta.

Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

Serões d'Aldeia

Ao amigo António Cruz

Na primeira metade do século passado, bem antes das televisões começarem a embrutecerem-nos com serões mais ou menos idiotas que nos vão aparvalhando a ideia, aqui pela Aldeia, as noites eram passadas entre família e amigos.

Os serões de Inverno tinham residência fixa, juntando novos e velhos, conversava-se, namorava-se, trabalhava-se e aprendia-se. Por essas noites, muito namoro se urdiu, muito casamento se acertou e muita coisa má se teceu.

Tinha-mos, entre outros, os serões, das Ticas, do Rolo, das Galinheiras, das Maginárias, do Pelágio, da Laura Banqueira, das do Pedro, do Resende, da Deolinda Costa, nos quais se aprendia a dançar o velho vira e se fiava a lã e, também o linho e, o das Maias, onde se combinavam e ensaiavam as contradanças.

Ali à Barreira, aconteciam igualmente uns serões muito populares e concorridos. Na família havia duas jovens casadoiras, inclinadas por dois irmãos que frequentavam os seus serões. Estes, no entanto, não correspondiam aos arrufos afectivos das duas donzelas, o que lhes ia moendo a paciência e azuquinando os dias.

Certa ocasião, rentinho à noite, os dois pretendidos, foram espreitar as moças. Engaboados e cosidos com os muros no lusco-fusco do final do dia, foram-se aproximando. Uma estranha lengalenga aguçou-lhes o engenho e, muros adentro, puseram vista nas raparigas que ao fogo, em volta de uma sertã, fritavam sapos que atiravam vivos para o azeite fervilhante.

Os anuros, ao caírem no azeite fervente guinchavam; Chiiiii Chiiiii Chiiii…, ao que as donzelas replicavam:

- Traz-mos aqui, traz-mos aqui!

Chiiii Chiiii Chiiii

- Traz-mos aqui, traz-mos aqui!

O azeite da fritura é de seguida junto com farinha e ademais condimentos e vertido numa forma que foi p’ro forno da lareira. Os irmãos, concluíram que aquilo só poderia ser obra má e abalaram.

Noite adiante, a meio do serão, as raparigas vêm oferecer bolo aos presentes, o que é muito louvado, desfazendo-se os convivas em elogios às simpáticas doceiras que foram muito cumprimentadas pelos seus dotes culinários. Os dois rapazes, sabendo da marosca, foram-se escusando; que tinham ceado muito, qu’até ‘tavam um bocadinho enfartados mas, p’ra não fazer desfeita, levariam uma fatia para comer logo mais.

Atiraram-na ao Buíça, uma cão mal amanhado e pouco dado a pieguices, que lhes guardava os pertences.

Horas depois deram por falta do bicho.

- Óh Buíça, toma!
- Anda aqui, cão!

Viraram a rua, o aido, os currais, capoeiros…, nada. O Buíça, levara sumiço.

Quando, dias depois, voltaram ao serão da Barreira, deram com o burgesso do Buíça deitado à porta das raparigas, alma feita em fanicos de tão enfeitiçado, que por lá acabou os dias.

Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006

Temperilhos & Remendilhos

Os antigos sabiam destas coisas da meteorologia muito antes da previsão do tempo nos ser servida pela televisão à hora do jantar. E de passagem, diga-se, com bastante acerto. Previa-se o ano agrícola a partir do tempo que faz em cada dia do mês de Dezembro. Temperilhos e Remendilhos, ou o juízo do ano no mês de Dezembro.

Ora como é que isto funciona? Fácil! O dia 1 de Dezembro, corresponde ao Temperilho do mês de Janeiro, ou seja, se no dia 1 de Dezembro chover, Janeiro será chuvoso. O Temperilho de Janeiro é confirmado (ou não) pelo Remendilho que, no caso de Janeiro, se dá a 24 de Dezembro. Assim, se a 1 e a 24 de Dezembro chover, é seguro que o mês de Janeiro será chuvoso. Se o clima que fizer nestes dois dias for diferente, valerá sempre o Remendilho. Complicado?

O tempo que fizer na última semana de Dezembro, a partir de 25, repercutir-se-á em cada os dois meses correspondentes, conforme tabela acima.

Se sois gente de pouca fé, ora vão lá comprar o Seringador ou o Borda d’Água, avisados de que são dois euritos mal gastos, porque se não for Temperilho, há-de ser Remendilho.

Percebe-se porque razão Portugal nunca precisou de pôr satélites meteorológicos no espaço a mandar bitaites cá p’ra baixo.

Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

O pão nosso

A 10 de Janeiro de 1935, inaugurava-se a electrificação de Fermelã, Canelas e Salreu e com esta, iniciava-se o declínio de uma actividade a que se dedicava muita gente da nossa aldeia; a moagem, actividade de fundamental importância para o povo, já que o pão constituía base da sua alimentação.

Em Canelas, existiam alguns moinhos movidos pela força animal – tocados à vaca - e muitas azenhas, nos rios Castanheiro e Ameal mas, a partir dos finais de Maio os caudais eram insuficientes para as fazer funcionar. Assim, os moleiros viam-se obrigados a ir moer para o rio Caima, em Albergaria-a-Velha.

A moagem no Caima, por parte dos moleiros Canelenses, iniciou-se em 1750, quando Joaquim da Silva Valente, de Canelas e aqui moleiro, aforou terras no local e, constatando que o rio mantinha água durante todo o ano, construiu um moinho e lá passou a moer. Muitos outros o seguiram, iniciando-se um suplício que se prolongaria por cerca de duzentos anos.

As jornadas eram extremamente árduas; os animais carregados dos cereais para moer, através dos montes, percorriam os “caminhos dos moleiros” para Albergaria, sob os calores estivais, subiam penosamente o morro de Nª Sª do Socorro arribando exaustos, homens e animais, pela noitinha, ao Caima. Sem tempo para descansar, havia ainda que tratar os animais, retirar dos moinhos a farinha e separar as maquias. Com a alvorada, monte abaixo regressavam para distribuir as moendas pelos fregueses, que as esperavam para coser o pão para oito dias e, recolher novas fornadas para moer.

Semana após semana, porque as bocas tinham de comer, mesmo aos Domingos, muitas gerações fizeram toda a sua vida no pó dos caminhos e da farinha, vidas gastas num trabalho épico e resumidas a lágrimas muitas.

O último moleiro a deixar o Caima, em 1967, moía no local da Boa Vista, foi Adriano Valente. Curiosamente ou não, fôra seu seu bisavô, Joaquim Valente o primeiro a ir para o local.

Por lá ficaram 42 rodas de moer milho, nos seguintes locais e pertença dos seguintes moleiros:

- No Palhal, na Companhia do Ouro do Braçal, 3 rodas de António Arrais, e António da Conceição.
- No Silvestre, Fábrica do Papel do Carvalhal, 6 rodas de Abel Arrais, Manuel Arrais e Augusto Santa.
- Na Boa Vista, na herdade dos pais, a família Silva Valente (Zabumbas) deixou 7 rodas.
- No Fafel, Manuel Santa deixou, 16 rodas.

Em 1954, o primeiro moinho, em Canelas, movido a motor foi pertença de Ângelo Almeida no Jardim. Em 1958 o primeiro moinho movido a energia eléctrica foi o do Manuel da Santa – Marques - na Rua de Baixo.

O Jornal de Albergaria de 21.11.2006, noticia que muitos dos moinhos do Caima, estão a ser recuperados pelos seus proprietários que se empenham numa reconstrução fiel dos mesmos. O nosso conterrâneo Alberto Santa, construiu um dos novos rodízios que estão a ser instalados nos velhos moinhos do Caima. Recupera-se o património e a memória de uma profissão extinta que tanto marcou a nossa Aldeia. Seria bom que o exemplo frutificasse e Canelas ainda viesse a recuperar parte da sua memória colectiva, ou seja, algumas das suas azenhas.

Bibliografia:
Escritos de António D. Sá.
Jornal de Albergaria.
Agradecimento ao nosso amigo Narcizo Cruz pela colaboração.

Na foto, Ti faustino que ainda mói numa das azenhas da nossa Aldeia.