Menina que anda de luto
Diga-me quem lhe morreu,
Ia cantando o Camondro de Sarrazola, ao som roufenho do seu acordeon, na casa dos Balgas, ali ao Calvário, uma casa em cuja adega se bebia o melhor vinho da aldeia, enquanto o salão abrigava os bailes que alegravam a juventude.
Aos dezasseis, a caminho dos dezassete, Belarmino sonhava ser dono da sua vida. Encostado à parede da sala, seguia com o olhar os passos leves da sua paixão, a Cidaliza que, nos braços do Manel, rodopiava sem parar derramando a esmo a alegria e beleza da sua juventude.
Já trabalhava como aprendiz do ofício de seu pai, pintor, fazendo por agora os trabalhos mais pesados e aborrecidos, preparando paredes, dando serventia aos mestres ou, limpando as pingas que caíam. Dezasseis escudos por semana, sessenta e quatro por mês, quando se conseguia arranjar trabalho para quatro semanas. Já era alguma coisa.
Muito lhe faltava para chegar a fingidor – o topo de carreira, como agora se diz - trabalhos de artista que transformava uma parede branca numa perfeita imitação do mais fino e puro mármore de Carrara ou, uma tábua de rude pinho, numa fina peça de raíz de nogueira. Seu pai, um mestre do fingimento, lhe ensinaria a arte.
Que se foi o seu amor,
P’ra’mar aqui estou eu.
Dentro de dois a três anos, poderia pedir a mão da pretendida Cidaliza, casar, e mais tarde, ter até habitação própria. Via-se a chegar a casa, fingidor reconhecido e respeitado, a mulher a recebê-lo de braços abertos, o petiz a correr para si, a mesa posta com a ceia fumegante... Absorto nos seus pensamentos, submergira na perspectiva da felicidade que se avizinhava. Despertou-o a voz do Cunha, mestre-sala que apregoava os lenços que as raparigas levavam para serem leiloados, um dos momentos altos do baile.
Quem arrematava o lenço, ganhava o direito de dançar com a sua proprietária. Para as raparigas, significava a conferência dos seus pretendentes e mesmo, o quanto valiam as afeições. Gerava-se alguma ansiedade e rivalidades várias entre as jovens. Belarmino esperava o lenço do seu coração enquanto o Cunha, ia subindo as paradas à razão de cinco tostões o lance.
- Agora, a menina Cidaliza! Quem dá dez tostões? Belarmino com a mão no bolso, recontou os seus vinte e cinco tostões. – Eu!
Alguém ofereceu quinze. – Dois escudos!
Na sala ouviu-se: Vinte cinco tostões!
Belarmino, ficara de fora. Abatera-se-lhe o mundo por debaixo dos pés. Para mágoa da sua alma e incompreensão da Cidaliza, não poderia continuar a licitar. Os seus magros dezasseis escudos semanais não davam para ombrear com ofertas de tal monta. Desalentado, baixou a cabeça e fixou tristemente o soalho.
Na sala, as ofertas subiram de tom. A Cidaliza era muito popular e pretendida.
- Cinco escudos, quem dá cinco escudos, perguntava o Cunha. O lenço da Cidaliza estava agora em sete escudos. Sete e quinhentos, quem dá sete e quinhentos?
Com o olhar errante, Belarmino percorreu a sala procurando o salafrário que dançaria com a sua amada por sete e quinhentos. Ninguém se atreveu. Casualmente, o seu olhar cruzou-se com o de seu pai. Este, com a cabeça, acenou-lhe afirmativamente.
Belarmino, ganhou vida enquanto o coração parecia rebentar-lhe dentro do peito. Deu um passo em direcção ao Cunha e com voz firme disse:
- Sete e quinhentos!
Dirigiu-se ao encontro de seu pai que lhe estendeu o dinheiro enquanto dizia:
- Quando um homem começa, é p’ra ir até ao fim.
Diga-me quem lhe morreu,
Ia cantando o Camondro de Sarrazola, ao som roufenho do seu acordeon, na casa dos Balgas, ali ao Calvário, uma casa em cuja adega se bebia o melhor vinho da aldeia, enquanto o salão abrigava os bailes que alegravam a juventude.
Aos dezasseis, a caminho dos dezassete, Belarmino sonhava ser dono da sua vida. Encostado à parede da sala, seguia com o olhar os passos leves da sua paixão, a Cidaliza que, nos braços do Manel, rodopiava sem parar derramando a esmo a alegria e beleza da sua juventude.
Já trabalhava como aprendiz do ofício de seu pai, pintor, fazendo por agora os trabalhos mais pesados e aborrecidos, preparando paredes, dando serventia aos mestres ou, limpando as pingas que caíam. Dezasseis escudos por semana, sessenta e quatro por mês, quando se conseguia arranjar trabalho para quatro semanas. Já era alguma coisa.
Muito lhe faltava para chegar a fingidor – o topo de carreira, como agora se diz - trabalhos de artista que transformava uma parede branca numa perfeita imitação do mais fino e puro mármore de Carrara ou, uma tábua de rude pinho, numa fina peça de raíz de nogueira. Seu pai, um mestre do fingimento, lhe ensinaria a arte.
Que se foi o seu amor,
P’ra’mar aqui estou eu.
Dentro de dois a três anos, poderia pedir a mão da pretendida Cidaliza, casar, e mais tarde, ter até habitação própria. Via-se a chegar a casa, fingidor reconhecido e respeitado, a mulher a recebê-lo de braços abertos, o petiz a correr para si, a mesa posta com a ceia fumegante... Absorto nos seus pensamentos, submergira na perspectiva da felicidade que se avizinhava. Despertou-o a voz do Cunha, mestre-sala que apregoava os lenços que as raparigas levavam para serem leiloados, um dos momentos altos do baile.
Quem arrematava o lenço, ganhava o direito de dançar com a sua proprietária. Para as raparigas, significava a conferência dos seus pretendentes e mesmo, o quanto valiam as afeições. Gerava-se alguma ansiedade e rivalidades várias entre as jovens. Belarmino esperava o lenço do seu coração enquanto o Cunha, ia subindo as paradas à razão de cinco tostões o lance.
- Agora, a menina Cidaliza! Quem dá dez tostões? Belarmino com a mão no bolso, recontou os seus vinte e cinco tostões. – Eu!
Alguém ofereceu quinze. – Dois escudos!
Na sala ouviu-se: Vinte cinco tostões!
Belarmino, ficara de fora. Abatera-se-lhe o mundo por debaixo dos pés. Para mágoa da sua alma e incompreensão da Cidaliza, não poderia continuar a licitar. Os seus magros dezasseis escudos semanais não davam para ombrear com ofertas de tal monta. Desalentado, baixou a cabeça e fixou tristemente o soalho.
Na sala, as ofertas subiram de tom. A Cidaliza era muito popular e pretendida.
- Cinco escudos, quem dá cinco escudos, perguntava o Cunha. O lenço da Cidaliza estava agora em sete escudos. Sete e quinhentos, quem dá sete e quinhentos?
Com o olhar errante, Belarmino percorreu a sala procurando o salafrário que dançaria com a sua amada por sete e quinhentos. Ninguém se atreveu. Casualmente, o seu olhar cruzou-se com o de seu pai. Este, com a cabeça, acenou-lhe afirmativamente.
Belarmino, ganhou vida enquanto o coração parecia rebentar-lhe dentro do peito. Deu um passo em direcção ao Cunha e com voz firme disse:
- Sete e quinhentos!
Dirigiu-se ao encontro de seu pai que lhe estendeu o dinheiro enquanto dizia:
- Quando um homem começa, é p’ra ir até ao fim.


