quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Chicoa, no fim do mundo

Naquele fim de tarde de Domingo, a Chicoa, um local inóspito e isolado na margem do Zambeze no perímetro de segurança da barragem de Cahora Bassa, acalmava do terrível calor que impiedosamente se abatera sobre nós. Aproximava-se o fim de um dia infernal. O ar ardente abafava a terra e, a sede dos corpos desidratados, exigia bebida. Todo o líquido servia para tentar aplacar a secura que nos mortificava.

À nossa volta, o céu, vermelho de fogo, empalidecia num cenário de uma cruel beleza de gradientes amarelos, dourados, vermelhos e carmins em horizontes recortados pelos embondeiros que, de braços nus, reclamam dos céus umas gotas de água que lhes mitigasse a sede.

Caía a noite e com ela, uma estranha e silenciosa acalmia que calou todo o lugar. Como se de um mau presságio se tratasse, como se toda a vida tivesse sido imolada no fogo do dia, como se tivéssemos sido deixados ao abandono naquele buraco do inferno, a natureza emudeceu no mais pesado dos silêncios.

Pelas oito da noite, caíram as primeiras granadas de morteiro dentro do precário acampamento de tendas de lona e barracões de chapa zincada demarcados por arame farpado. Os rebentamentos continuados, os sons sibilinos dos fragmentos de metal ziguezagueantes que procuram a carne onde se alojar, o som das armas automáticas, despertaram-nos do torpor em que caíramos.

No centro de uma confusão indescritível, cada um procurava protecção nos abrigos improvisados, buracos escavados no solo tapados com troncos de árvores ou, debaixo do fogo que tudo varria, tentava chegar com vida aos locais predeterminados para a defesa de um possível ataque inimigo.

Após duas horas de desumano tormento, as armas calaram-se. Olhámos desoladamente o acampamento destruído. Comunicações, víveres e combustíveis tinham sido incinerados.

As primeiras granadas de morteiro que explodiram dentro do perímetro do acampamento da CCS – Companhia de Comandos e Serviços – do Batalhão de Caçadores 3886, que serviu em Moçambique de 1972 a 1974, provocaram, entre os jovens militares que por força legal defendiam os territórios ultramarinos, se a memória me não atraiçoa, um morto e três feridos.