sábado, 8 de Setembro de 2007

Festa a S. Paio da Torreira

Decorrem neste fim-de-semana na Torreira, as festas a S. Paio. A maior das festas marinhoas, mostra-se ao mundo e, a diáspora murtoseira, respondendo ao apelo das suas raízes, volta a casa nestes dias. Circulando por entre a multidão, ouvem-se os linguarejares das terras de acolhimento dos muitos que tiveram de procurar, vida melhor, pelos quatro cantos do mundo.

Faltar-lhe-ão alguns dos encantos de há quarenta ou cinquenta anos atrás. A viagem de barco será um deles. As bateiras já não existem ou, não chegam aos cais da Torreira, assim como, se já não ouvem as vozes da Maria barbuda e do Marques Sardinha que ecoam intemporalmente sob as areias da praia. Já se não levam farnéis nem se pernoita nos palheiros. Agora, vai-se de carro, ainda que se demore um pouco mais, e se vivam muitas chatisses, até se conseguir chegar e estacionar, em paragens que se não coadunam com este progresso mecanizado e consumez.

Restam do passado, os moliceiros, cada vez menos, as pequenas embarcações de pesca, as bandas de música e as rusgas. As rusgas a S. Paio que se constituirão talvez, como a última das mais preciosas tradições desta festa, para além da alma murtoseira, como é evidente, agora que os cantares ao desafio se substituíram por meninas que gritam em playback, ficaram, até ao momento, as rusgas.

As rusgas espelham, a alma e a devoção, dos romeiros que em grupo, dançando e foliando rumavam à Torreira e aos festejos em honra de S. Paio. Na noite de ontem, a tradição cumpriu-se e, dez rusgas, fizeram a festa à sua maneira, à maneira como deve ser feita. Resistem ao progresso dos amplificadores, do barulho incomodativo e sem préstimo duma gentinha que ganha a vida a fazer que faz, nada fazendo que proveito social tenha, exceptuando o ocupacional entretenimento de cabeças mais vazias. Resistem a manter a genuína cultura de um povo que sente o apelo das águas onde sempre ganhou o pão, onde perdeu entes queridos, onde viveu tragédias e também muitas alegrias. Mas adiante!

A minha aldeia de Canelas, deslocava-se outrora, em peso, para a Torreira. As bateiras, carregadas de gente e alegria, faziam parte da própria festa à ida, e à vinda. E tinha igualmente a sua rusga, que cantava originais ligados ao local e ao Santo. Venceu o concurso por cinco vezes consecutivas. No ano imediato, não ganhou e não mais se organizou. Questiúnculas internas acabaram com a participação da aldeia na homenagem a S. Paio. E foi pena, porque Canelas está umbilicalmente ligada à Ria e à festa a S. Paio, tem para nós Canelenses, a mesma raiz cultural de qualquer das nossas festas locais.

Um abraço aos murtoseiros e o agradecimento devido a quem teima em organizar esta festa, em tempos tão adversos à cultura de raiz popular.

PS: Sendo um amador menos evoluído da fotografia, tenho um particular gosto em fotografar pessoas, tema difícil na medida em que, geralmente, as pessoas não gostam de ser retratadas. As rusgas de ontem, proporcionaram-me a oportunidade de fazer alguns retratos da genuinidade popular que só o povo encerra. Sem preparação e sem rede, para o fotografo ou para o retratado, irei publicando algumas dessa fotos – talvez uma por dia durante algum tempo, [aqui].

Como não tive oportunidade de identificar as diferentes rusgas, se alguém o souber, poderá fazê-lo na caixa de comentários.