Terça-feira, 31 de Março de 2009

O esteiro do Ribeiro e a Q da Simria

A Simria, divulgou recentemente com a pompa que se exige e a propaganda que se intui, que a APCER, lhe manterá a certificação do sistema de gestão de responsabilidade social, num comunicado à imprensa, dramatizado pela afirmação de que tal resultaria de uma segunda auditoria ocorrida durante Janeiro de 2009, realizada sem aviso prévio.

Desconhecia que a APCER fazia auditorias surpresa, já que nunca lhe conheci tal prática. Talvez inspirada na ASAE, entrará agora empresas adentro, para punir os infractores e louvar os bem comportados. Nos tempos em que trabalhei com esta empresa, as auditorias de seguimento, eram calendarizadas e pagas mas, pelos vistos, a dita adquiriu comportamentos policiais e estatuto de autoridade pública. Enfim, para quem sabe o que é a Apcer e um sistema de gestão ou garantia da Qualidade, para que serve e como se obtém, esta conversa da Simria não tem ponta por onde se lhe pegue.

Acresce para além desta certificação, que a Simria é igualmente certificada pela Apcer, nas vertentes de Qualidade, Ambiente e Segurança. Aguarda-se com impaciência, uma próxima certificação, talvez na lavagem dos rabinhos do pessoal operário.

Esta coisa das certificações, é um negócio interessante para as várias empresas certificadoras que as certificadas entendem ser uma mais-valia sobre eventuais concorrentes não acreditados. É inegável que o funcionamento orientado por regras conducentes a determinado objectivo, produz benefícios vários nas organizações, produtos, e vantagens para os consumidores. Mas, para que consigam estas melhorias, não é obrigatoriamente necessário que as empresas sejam certificadas. Basta que internamente, se orientem para os objectivos que determinarem. Anunciar uma certificação como se tal fosse um atestado de santidade, é apenas propaganda.

No caso presente, a Simria ou a Apcer, ou mesmo as duas, deveriam explicar direitinho, como é que a primeira foi certificada pela segunda nas áreas da Qualidade, Ambiente e Segurança quando, só na EEN9, estação elevatória sita na freguesia de Canelas, Concelho de Estarreja, junto ao esteiro do Ribeiro, numa área integrada na ZPE da Ria de Aveiro, são descarregadas para as águas do braço da Ria, muitos milhares de metros cúbicos de efluentes que se depositam no leito, e ali ficam a contaminar o ambiente, as águas, e o gado que destas bebe.

E a coisa não é pouca. No período de 2004 a 2006, segundo um estudo da COBA/ENGICO, publicado em papel da própria Simria, foram feitas 8 descargas (cerca de uma em cada quadrimestre) para aquelas águas, com volumes variáveis calculados - por descarga - entre os 1.116 e os 3.772 m3. No mesmo período, aquela estação elevatória registou 47 avarias, ou seja, 1,3 acidentes/mês.

Parece que a tragédia supra descrita, se designa agora por responsabilidade ambiental e social. Pelo menos nas palavras da Simria, corroboradas pela Apcer. E tudo isto é dito e feito sem qualquer rubor facial, porque o que está em jogo, é apenas negócio. Como sabemos das práticas, a conversa da protecção ambiental serve apenas à lavagem das consciências, e aos intuitos eleitoralistas.

Sugere-se à APCER a revisão de critérios, ou dos consultores. É óbvio que não tem capacidade legal para fazer auditorias surpresa. Mas, acredito que faria melhor trabalho se, em vez de auditar a sede, verificasse no terreno - se é que o não faz - junto dos vários equipamentos daquela empresa, o seu estado funcional, e a real qualidade produzida.

A crise que vivemos origina-se numa mistura em partes iguais de ignorância popular, e ganância desmedida de gestores sem moral. Como de costume, por cá não se aprendeu nada. Nem quem manda, nem quem obedece.