Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

O infortúnio das pequenas freguesias

A entrevista do senhor Simões Pinto, presidente da Junta de Freguesia de Canelas, recentemente concedida a este Jornal / RVR, merece alguma atenção, mais pelo vazio de conteúdo, do que, pelo que é efectivamente dito. Creio que em final de mandato e carreira política, algo mais de relevância, haveria a dizer. Os seus dezasseis anos à frente da freguesia não se poderão resumir na construção do cemitério. Outras obras foram feitas. O saneamento e a água canalizada ao domicílio, por exemplo, foram feitas durante os seus mandatos. Pelos longos anos enquanto presidente da Junta de Freguesia, merece o reconhecimento que lhe é devido, porque não será fácil às pequenas freguesias, conseguir a atenção do Poder Autárquico. Esse, costuma lembrar-se da existência destas pequenas aldeias, por altura de se ir a votos.

A sua resposta à questão de saber, qual a grande obra projectada para a freguesia, ilustra sem sofismas, a atenção que os executivos municipais têm dispensado a Canelas: Nenhuma! Como tenho referido, as pequenas freguesias, para quem não tem qualquer visão de desenvolvimento global, são apenas uma chatice que é necessário contornar, de quatro em quatro anos.

Pena ter-se perdido em divagações e linguagens truncadas de conotação bélica, referindo-se a inimigos e flancos, coisa actualmente pouco inteligível e muito menos digerível. Não pensará o senhor Simões Pinto que entre partidos políticos existem ideologias ou batalhas a travar? Terá compreendido que estão todos de um mesmo lado, e o verdadeiro povo, do outro, certamente.

Devo confessar a surpresa com que verifiquei, várias referências à minha pessoa em afirmações, conselhos e indicações que não poderei deixar de comentar. Apesar do reconhecimento à boa razão dos “meus alertas” entende que a forma é mais importante do que o conteúdo, no que seremos diametralmente opostos.

Na referida questão das lamas, efectivamente, não fora a minha acção e Canelas, teria sido transformada num monte de, como diz, “trampa”. E não teria sido minha obrigação. Talvez mais, sua, já que como se veio a comprovar, o despejo era totalmente ilegal. Fui pessoalmente falar-lhe por duas vezes, para que tomasse as devidas iniciativas impeditivas ao crime que se estava a materializar. Da primeira vez, disse nada. Da segunda, que nada faria e, quanto a mim, que fizesse o que entendesse. Acrescentou a um órgão de comunicação social que “aquilo” até era bom para as terras! Acredito que não tenha compreendido de imediato, a dimensão e gravidade da questão. No entanto, passado todo este tempo, não tem qualquer moral para que me venha fazer acusações quanto a um crime ambiental que, para ser parado, tive de levar, sozinho, à Assembleia da República.

Tem razão ao dizer que no caso da pretensão da Simria, o caso vai pelo mesmo caminho. É que passado mais de um mês após a eleição da Comissão de Acompanhamento, esta ainda não reuniu e, de minha parte, é bom que se saiba que não assumo compromissos junto da população, para fazer de conta. Devo igualmente esclarecer, que em Assembleia, a população se pronunciou por um rotundo não à construção da bacia de retenção, para cá ou, para lá, da água salgada. A referida empresa tem de encontrar soluções civilizadas e, em caso de contaminação do Esteiro, o papel da Junta será apenas um: responsabilizar judicialmente o poluidor.

Quanto ao conselho para que me candidate, já referi publicamente e por diferentes ocasiões que a política, tal como é exercida neste país, não me merece aprovação ou concordância. Remotamente, aceitaria trabalhar para a cousa pública, integrando um grupo de cidadãos partidariamente independentes, comprovadamente competentes, desde que imbuídos no espírito de trabalhar descomprometidamente na mudança, para melhor, da vida dos portugueses. Folclores de entretenimento, não me motivam.

Quanto ao que faço ou não, escrevo em blogues, jornais, ou cultivo morangos, o senhor António Simões deveria saber que é esfera da minha vida privada. Aqui sim, deveria ter sido comedido. Ninguém obriga ninguém a candidatar-se ao exercício de cargos públicos sabendo, quem se candidata, que será sujeito ao escrutínio dos cidadãos.

Assim como lhe dispenso o conselho para me mudar, se me não sentir bem. Por fruto do meu trabalho, garanti os meios para tal. Quando Canelas, que é a minha terra natal, não reunir condições para que aqui habite com a qualidade de vida que qualquer cidadão deve exigir, saberei mudar-me, sem que seja mandado. O problema de fundo, é que muitos outros cidadãos desta pequena aldeia, aspiram igualmente a uma terra mais digna, desenvolvida, capaz de garantir habitabilidade e emprego aos seus filhos, coisa que até ao presente, não foi conseguida e, as reminiscências de um caciquismo serôdio, já não afugentam ninguém.

De resto, a constatação de que a autarquia de Estarreja despreza as pequenas freguesias, não chega para justificar a situação a que se deixou chegar esta terra, o Concelho, e mesmo o próprio país. Por tal, a responsabilidade será de todos, logo, de ninguém. Mas, seguramente que será necessário gente nova, outra gente que saiba traçar metas de desenvolvimento, que determine planos de execução, que se disponha a governar e não governar-se, para que algo mude. Os repetidos apelos ao voto nas eleições que se avizinham, não passam de tentativas de legitimação do actual estado de coisas. Votaremos para que legitimamente, se continuem a aprofundar as desigualdades sociais, a pobreza, o desemprego, o atraso socioeconómico, para que se entregue a pouca riqueza produzida aos agiotas da banca ou, se pague os desfalques e vigarices que personalidades ligadas ao regime vão perpetrando, enquanto se pioram as condições de acesso à saúde ou, se deteriora a qualidade do ensino.

Uma ultima palavra para a iniciativa conjunta JE/RVR, de entrevistar os presidentes das sete freguesias do Concelho, que teve o grande mérito de pôr a nu, a genialidade – uns mais, outros nem tanto – dos regedores actuais. Em alguns casos, comparada com o que ouvimos e lemos, a pobreza franciscana, era sumptuosamente, rica.

Publicado no Jornal de Estarreja de hoje, 08/05/2009