Trapalhada das escutas, delírio do BE e pulverização do PSD ajudam a criar os mais improváveis estadistas.
Ontem, à saída do palácio de Belém, o engº Sócrates brindou-nos com uma exibição de luxo: rendido aos encantos do diálogo e às vantagens da negociação, o novo primeiro-ministro dispôs-se humildemente a falar com todos os partidos da oposição, sem "reserva mental" e sem "preconceitos", para assegurar "um Governo de quatro anos que responda aos problemas do país". Este alto desígnio exige, como é óbvio, uma oposição grata e solícita que saiba corresponder devidamente ao "gesto de abertura" tomado pelo PS. Tendo em conta o Governo anterior, exigiria também um primeiro-ministro diferente mas, terminado o ciclo eleitoral, os tempos não parecem propícios a este tipo de avaliações.
Por muito que isso custe a alguns espíritos mais renitentes, o engº Sócrates, depois de ter ganho este ciclo eleitoral, pretende, agora, transformar-se numa espécie de referencial de estabilidade. Uma pretensão que seria, no mínimo bizarra, se não se desse o caso do PS ter pela frente um PSD em frangalhos, um Bloco de Esquerda diminuído e um Presidente da República fragilizado. Perante este quadro de miséria, não é particularmente difícil governar à vista, entre a esquerda e a direita, recorrendo, sempre que necessário, ao apetecível papel de vítima. Difícil, sim, será suceder a si próprio mas enquanto o principal partido da oposição não se apresentar como uma alternativa sólida aos devaneios socialistas essa dificuldade acabará sempre por ser resolvida – como, aliás, se viu, nas últimas legislativas. Se o PS perdeu um partido (e perdeu), o PSD acabou por perder mais uma vez o país.
Por outro lado, os resultados do Bloco de Esquerda, no domingo, nomeadamente os resultados em Lisboa, não mostram só que o partido tem uma fraca implantação autárquica, o que, já de si, seria um fraco consolo eleitoral: mostram principalmente as debilidades de uma agremiação que vive do voto de protesto e de uma série de propostas lunáticas. O caminho, que parecia tão prometedor nas europeias, acabou por se afunilar inesperadamente nas autárquicas e na intransigência de meia dúzia de luminárias. Ao excluir-se de qualquer solução governativa, o Bloco corre o risco da inutilidade e de ficar de novo a falar sozinho.
Já o Presidente da República, a única voz com autoridade neste cenário de desolação, corre o risco de a ter perdido. Depois admirem-se que tudo isto – a trapalhada das escutas, o delírio do Bloco de Esquerda, a pulverização do PSD – ajude a criar os mais improváveis estadistas.
Constança Cunha e Sá, Jornalista, in
CM