A pobreza franciscana em que vivemos também se vê assim. Nos países civilizados, a generalidade dos cidadãos, após uma vida de trabalho, puderam acumular os capitais necessários ao financiamento da sua velhice. Não é preciso ir longe, basta dar uma volta pelo Algarve para se perceber que estes cidadãos possuem os meios financeiros para viajarem pelo mundo, comprar propriedades em locais turísticos e manter uma qualidade de vida que a esmagadora maioria dos portugueses nunca conheceu.
Em Portugal, os idosos vão passar os seus dias à escola de desporto municipal. É o que temos e, em boa verdade, foi o que construímos. Os responsáveis directos por este faz de conta, foram democraticamente eleitos, grande parte deles, com base em discursos e promessas que, chegados ao poder, imediatamente esquecem sem que ninguém lhes peça responsabilidades ou, avive a memória.
O estado social, acabou. Os que ainda não deram por isso, será melhor que acordem e pensem no país que vão deixar a filhos, netos e bisnetos. De momento, deixam-lhe dívidas para pagar e um país onde não se vive. Vegeta-se.
Aqui pela aldeia, discutia-se o eventual encerramento da extensão de saúde local, com o propósito de melhorar os cuidados da dita. É esse o discurso, desde que os putos começaram a nascer nas ambulâncias porque se encerraram as maternidades.
Nunca entrei na extensão de Canelas. Imagino pelo que se diz das filas desde a quatro da manhã, que seria ou será, útil a alguém. Como ainda não vi os utentes esboçarem qualquer protesto ou os representantes que elegeram, pronunciarem-se sobre o assunto, deduzo que estarão todos de acordo.
Provavelmente, uma ida a outra localidade, proporcionará alguma distracção que na aldeia não há. No caminho para o médico, dado a prodigalidade festivaleira do Concelho, os doentes poderão sempre dar de caras com uns festejos carnavalescos, umas marchas de santo qualquer coisa, um festival de chinquilho, uma competição de samba, um torneio de suéca, uma palhaçada no Antuã, uma aula de ginástica geriátrica, um curso de defesa pessoal para idosos, um diploma de internet sénior, um festival de natação, um torneio de andebol, um passeio de bicicleta, um encontro de danças folclóricas, um passeio sénior com caldo verde e bailarico à mistura, uma matiné dançante, uma marcha pedonal ou qualquer outro evento que a nossa autarquia tão bem organiza ou comparticipa, desde que se deixou de gerir o Concelho e, em boa hora, optou por se transformar numa produtora de eventos sociais.
Entende-se que entre tantas actividades, os velhos não tenham tempo para estar doentes, razão pela qual não se justifica o custo de manter a extensão em funcionamento. Vai uma pessoa de táxi, cheia de achaques para o médico, dá de caras com um destes eventos magníficos e passa-lhe logo, como garantido pelo aforismo de que o corpo só dói quando vem da festa.
E seguramente que se mesmo assim, conseguir chegar ao médico, já nem se lembrará do motivo a que ia. Ora Viva, a quem tão bem trata da gente!
Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
é tudo para vosso bem
Publicada por
AC
em
10:56 PM

