O meu estimado amigo, Sérgio Paulo Silva, teve a bondade de me fazer chegar o seu mais recente escrito; Salreu, uma aldeia em papel de arroz.
Declaro-me suspeito ao falar da escrita do Sérgio. Talvez porque fala numa linguagem que é também minha, como será a de todos os nascidos nestas terras ribeirinhas. Talvez porque fala de nós tal como o somos, das nossas coisas, dos trabalhos colossais por que passámos, das nossas vitórias e derrotas, tristezas e alegrias, dos invernos húmidos, dos verões escaldantes, das cestas de enguias apanhadas à mão nos derradeiros charcos formados nas terras de arroz, dos garotos que fomos, pés descalços nas regueiras a caminho do campo, no perfume dos morangos silvestres, nos agriões que cresciam em cada regato.
A propósito do arroz que nos anos 50 do século passado inundava, como se uma maré fora, os campos alagados de Salreu, e também de Canelas, o Sérgio constrói mais um inestimável documento narrativo do nosso passado recente, infelizmente já tão distante para alguns. Ilustrado com belas fotografias desse trabalho árduo que era a cultura daquele cereal, das saudosas bateiras que engarrafavam o trânsito nos nossos esteiros.
Num ápice, e pelas suas palavras, revi a minha infância. Como se as palavras escritas se animassem e passassem diante de mim como o filme da vida que dizem vermos, nos instantes finais.
Para lá das memórias passadas a letra de forma, fica um contributo mais para a história destas aldeias que, de tão pequenas e insignificantes, pouca atenção merecem daqueles que determinam o mercado cultural. Como habitualmente, é uma edição de autor de tiragem reduzida e, ao que julgo saber, a maioria dos exemplares – se não a totalidade - adquiridos já por uma empresa multinacional. Não sei se haverá exemplares disponíveis. É passar pelos Móveis Neto, ali ao lado do supermercado Couto em Estarreja, e perguntar.
Fica o telefone: 234 844 265

