Não me parece que a generalidade dos mabecos já tenha percebido o sarilho em que estamos metidos. Para lá do saque perpetrado por tudo o que se pôde aviar, desde empresas que derrapam obras 10 vezes o custo inicial, a trafulhas que acumulam pensões, vencimentos e comissões, não esquecendo aqueles respeitáveis senhores banqueiros que venderam acções a 5€, de valor real menor que 1, ou aqueles outros que faliram as instituições e o Teixeira foi lá pôr a correr o dinheiro público para tapar o buraco, as especulações várias sobre o petróleo, o pão ou o euro, as infindáveis mordomias com que os quadrilheiros se mimoseiam, tem sido um grandioso regabofe.
Com pouca vocação para o trabalho, este gado foi-se habituando a mandriar na medida em que o ouro deixado por Salazar, e depois, os fundos perdidos da EU (e digo perdidos porque o foram de facto, entre betão vário, macadame, fraudes de formação profissional, putas, Audis e BMWs) foram permitindo que se vivesse sem trabalhar. Neste intermezzo, liquidou-se a agricultura, as pescas, a indústria pesada, e muitos milhares de empresas que foram fechando portas por falta de competitividade nos mercados internacionais.
O analfabetismo que nos caracteriza e está no sangue, foi primeiro disfarçado com sucessivas vagas de formação profissional, uma burla gigantesca que enriqueceu alguns espertos e deixou na escuridão ancestral os frequentadores de tais programas. De seguida, apareceram as novas oportunidades, um entretenimento que serve exactamente para entreter quem não tem competências para ir além da antiga quarta classe. O ensino, tal como os sectores produtivos, foi entretanto, igualmente desmantelado. Basta ver o conteúdo das provas a que os estudantes dos nossos dias são sujeitos, para se ter a medida do seu saber.
Naturalmente, um país que não tem riquezas naturais, não trabalha, não produz e não ensina, não tem dinheiro para sustentar tanta malandragem. A solução, à falta de coragem ou saber, tem sido a costumeira, aumento dos impostos, ou seja, alargar sistematicamente o número de pobres, entre grandes desígnios que passaram por paixões pela educação, um computador em cada lar, ou a realização de um campeonato europeu de futebol. Em suma, fodeu-se o que havia, o que nos deram, e o que pedimos emprestado.
A crise que vivemos, e a menos que se corra com todos estes aldrabões que nos pastoreiam, ficará por muitos e largos anos. Estamos no caminho de uma futura pobreza que fará dos tempos Salazaristas, um período de saudosa abundância. Já aqui referi que Portugal não tem competências técnicas ou humanas, conhecimento cientifico ou aparelho produtivo, para criar a riqueza que nos permita viver dignamente. As restrições agora impostas, com os cortes salariais, os aumentos nos impostos, a redução do investimento, apenas servirão para agravar a situação. Temos pela frente, tempos verdadeiramente difíceis, e muita gente a evitar.