o crescimento da mendicidade é diretamente proporcional ao empobrecimento. e como empobrecemos diariamente, o aumento do número de pedintes é inevitável. quem passa, por exemplo, na rua de santa catarina, no porto, não pode deixar de sentir vergonha por ser português.
para além dos sem abrigo, deficientes, vendedores de pensos rápidos e afins, dos pobres que já desistiram até de pedir e se deixam inertes nos passeios, dos artistas de rua, um eufemismo para designar novos pobres que estendem a mão à caridade, existe agora uma nova classe de gente em dificuldades. pessoas razoavelmente apresentadas, que abordam quem passa pedindo ajuda para comer. são muitos e não se identificam pela aparência, apanhando desprevenido quem passa, estendem um rol de lamúrias que incomoda e desencoraja a caminhada naquela rua. não se anda 30 ou 40 metros sem que não sejamos abordados por alguém que pede.
o banco alimentar, lançou ontem um novo peditório. são milhares de pessoas às portas dos supermercados, estendendo um saco a quem passa. também incomoda. física e moralmente.
milhares de pessoas esperam que os voluntários daquela organização peçam nas ruas, a sua próxima refeição. já nem se dão ao trabalho de ajudar no peditório. usufruem dele. habituámo-nos a viver assim. sem expectativas, sem anseios, sem ambição, sem esperança. habituámo-nos a ser mendigos. por conta própria ou, alheia. perdemos a dignidade de viver do produto do nosso trabalho.
são muitos milhares de portugueses, pedindo para si ou para os outros, incapazes de um gesto de revolta contra este sistema que acabará por fazer de todos nós, pobres. como se de uma fatalidade se tratasse, como se houvesse qualquer justiça social na caridade. se esta gente que se levanta para ir pedir à porta das mercearias, se levantasse para exigir contas a quem fez de nós pobres, teríamos a oportunidade de nos afirmar com a dignidade que deve assistir às pessoas. viver do nosso trabalho, num país limpo, governado por gente séria.

